Em cima de um caminhão parado, devotos do movimento Hare Krishna entoavam seus cânticos em voz alta. Ao redor, vendedores de churrasquinho, um homem dublando Roberto Carlos em um karaokê improvisado, crianças correndo com sorvetes nas mãos e torcedores vestindo camisetas da Argentina e da Espanha.A Avenida Paulista fervilhava de gente no domingo da final da Copa do Mundo, reunindo em um mesmo cenário uma miscelânea de culturas, roupas, cheiros, etnias e humores. A profusão de estímulos fez com que, ao deixar a rua e subir no elevador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), eu tivesse a sensação de entrar em uma bolha.Estava ansiosa para conferir a exposição Matéria e Energia, do artista mexicano Damián Ortega. A fotografia do catálogo, mostrando um Fusca desmontado com todas as peças suspensas no teto — ora evocando a imagem de um átomo, ora lembrando um dinossauro — havia despertado minha curiosidade.Ortega não decepcionou. Foi, porém, a exposição Confluências, da artista colombiana Carolina Caycedo, que me pegou de jeito. Por meio de fotografias, instalações, vídeos, performances e desenhos, ela estabelece um ponto de encontro entre cursos d’água, pessoas, ideias e culturas ligadas aos movimentos sociais latino-americanos.Um dos temas recorrentes em sua obra é a relação entre o ser humano e a natureza, especialmente a devastação provocada por atividades extrativistas, como a mineração. Tragédias como a de Brumadinho, em Minas Gerais, aparecem retratadas em instalações e pinturas que exigem um olhar demorado.Em meio às imagens de terras reviradas, lagos ressecados e ecossistemas destruídos, uma tecelagem colorida se destacava pela exuberância. Nela, a imagem de uma mulher surgia sobreposta à bandeira porto-riquenha, cercada por ramos de café, borboletas e pequenas flores de papel.Descobri que a obra homenageava Faustina Tinti Deyá Diaz, ativista ambiental que, na década de 1980, defendeu as montanhas e as comunidades do centro-oeste de Porto Rico. Sua luta culminou na fundação da Casa Pueblo, organização comunitária que impediu a exploração mineral por grandes empresas na região.Em vez da devastação, poluição e adoecimento da população provocado por atividades insalubres, Tinti ajudou a construir um projeto econômico alternativo, baseado no cultivo de café, na criação de borboletas e na geração de energia solar, garantindo renda para a comunidade e preservando o ecossistema.No aeroporto, enquanto aguardava o voo de volta para Goiânia, pesquisei sobre o “mariposário” criado por Tinti. Pouco depois, já no Instagram, me deparei com a história de um dos meus perfumes favoritos, o Miss Dior. Soube que Christian Dior criou a fragrância inspirado na irmã, Catherine. Integrante da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, ela foi presa pelos nazistas e enviada para um campo de concentração na Alemanha.Catherine sobreviveu às torturas e aos estupros, retornando à França lúcida e digna. Para reconstruir a própria vida, passou a cultivar flores na fazenda do pai. Anos depois, algumas das rosas e dos jasmins produzidos por ela se tornariam matéria-prima da perfumaria francesa.Duas mulheres, em tempos e lugares diferentes, devolvendo ao mundo aquilo que a violência tentou arrancar-lhes. No lugar das máquinas pesadas da mineração, Tinti fez florescer borboletas. Sobre as cicatrizes deixadas pelos campos de concentração, Catherine cultivou flores. Talvez a forma mais profunda de resistência seja esta: jamais permitir que a brutalidade tenha a última palavra.