Houve um tempo em que as coisas eram apenas o que eram, sem necessidade de legenda ou bula conceitual. Comprava-se um sapato para proteger os pés da aspereza do chão; tomava-se um café para espantar o torpor da madrugada; adquiria-se um serviço qualquer pelo pragmatismo cego da utilidade. A vida resolvia-se no plano das necessidades. Mas o marketing, esse demiurgo da insatisfação crônica, operou uma transmutação semântica que afugentou a simplicidade do cotidiano. Hoje, ninguém mais consome um produto; as pessoas compram uma “experiência”. A modernidade pós-moderna decretou que cada vivente deve se tornar um sommelier do trivial. O ato de comer um pastel na feira ou de hospedar-se numa pousada à beira do Araguaia precisa ser gourmetizado, catalogado e inserido no acervo intangível das recordações. É a ditadura do afetivo sob encomenda, onde a realidade só ganha direito de existir se puder ser emoldurada numa narrativa performática, preferencialmente instagramável.Olhando para essa engrenagem de ilusões, sou forçado a confessar que tive a minha cota de “experiências” muito antes que as agências de publicidade inventassem o conceito. Eu era um jovem rural, com o rosto pipocando pelos hormônios lascivos da adolescência, vivendo naquela expectativa agônica que precede os dezoito anos. Naquele tempo, a maior utopia geográfica não era Manhattan ou Paris; era o bordel.Os primos mais velhos, veteranos daquela boemia, narravam o local com a solenidade de quem descreve um cafofo no paraíso. Um deles, tomado por um misticismo de alcova, chegou a confessar-me que, no momento derradeiro, se São Pedro lhe desse a opção de escolher entre o Reino dos Céus e o bordel, ele abriria mão da eternidade de harpas para fixar residência entre os lençóis de chita da casa de saliências. Mal completei a idade regulamentar, sem esperar que o tempo assentasse o mormaço da pressa, parti em busca do paraíso tão sonhado. Eu tinha os dezoito anos recém-estreados no peito, mas carecia da burocracia necessária: não portava a carteira de identidade. Cruzei os arcos do Monumental Bordel com o orgulho de um conquistador que finalmente pode gritar “terra à vista!”. O ambiente tinha o perfume de gardênia, eu supunha, e a promessa de um pecado que ia muito além daqueles preconizados pelos catecismos do padre Wiro.Avistei a primeira “donzela”, esbocei o sorriso submisso que nossos ancestrais das cavernas inventaram para evitar a bordoada e, antes que a primeira rima do desejo se concretizasse, a realidade cobrou-me o alvará. Um policial, cuja autoridade parecia maior que o próprio bom-senso, materializou-se à minha frente, exigindo os documentos. Constatada a nudez civil da minha pessoa, o protocolo da assepsia social entrou em ação.Não houve transação fria, nem mediação. Fui empurrado para fora sob uma saraivada de xingamentos que cortavam o ar da noite. E ali, no limiar da calçada, o braço da lei aplicou-me um golpe cruel: o guarda me calçou a perna. O tombo foi monumental. Desabei de comprido sobre o cascalho grosso da rua, sentindo a crueza do chão rasgar-me a pele, os beiços e a vaidade. Para completar o batismo da minha inadequação, os circunstantes explodiram em gargalhadas, um coro de escárnio que ecoou pelas ruas descalças da Iporá de antigamente.Hoje, quando vejo essa juventude obsessiva investindo fortunas em “experiências” higienizadas e controladas por aplicativos de design, dou risada com meus botões. Eles buscam o risco calculável, a transgressão com porta USB. Minha experiência mais autêntica, aquela que fixou moradia perpétua no arquivo das minhas memórias, não teve o sabor suave do chantilly. Teve o cheiro de poeira, o gosto de sangue na boca e a dureza do cascalho que me ensinou, na crueza de um coice de cavalo, que a vida real sempre guarda o imprevisto para quem tenta entrar na festa sem o devido habite-se, ou alvará de entrada e permanência.