“Como vai, minha libido?” – o velho esquisitão grita no jardim, como se procurasse algo que se esconde. A cena aparece no filme Meu Nome É Agneta, uma comédia dramática sueca de 2026 com uma premissa comum no cinema e na literatura: mulher de meia idade em crise parte para algum lugar distante, onde redescobre a alegria de viver.Ao assisti-la alinhavei na memória os retalhos de outras histórias semelhantes, como o famoso Comer, Rezar e Amar e O Fio de Ariane, filme francês de 2014. Ariane, a mulher de 50 anos, que não recebeu sequer uma visita de amigos, marido e filhos durante seu aniversário, depois de ter preparado uma festa, parte em viagem para Marselha no sul da França, encontrando pelo caminho figuras singulares com as quais cria vínculos de afeto e solidariedade, e resgata o sentido da vida.A sueca Agneta, assim como a francesa Ariane, também vive uma rotina tediosa, com um casamento frio e um trabalho monótono. Os filhos já cresceram, foram embora de casa e só procuram os pais para pedir dinheiro. O único prazer da personagem é tomar vinho e comer queijos franceses, e sonhar com a região da Provença, no sudeste da França.Ao encontrar um anúncio de “au pair” de uma pequena cidade provençal, para cuidar de um tal Einar, ela se candidata. Embora já tenha 49 anos – em geral as vagas para tais programas de intercâmbio são destinadas a jovens – e não fale em francês, é aceita de imediato e viaja, deixando para trás o marido perplexo.Ao chegar, porém, à cidadezinha, descobre a razão de ter sido escolhida tão prontamente: sua tarefa será cuidar não de um menininho chamado Einar, mas de um octogenário gay, excêntrico, que enfrenta a demência e vive em um ambiente artístico e caótico.No meio do filme, descobrimos, junto com a protagonista, que a libido à qual ele se dirige no jardim é representada por um jabuti, ou melhor, uma jabota – assim é designada a fêmea do animal, segundo os dicionários, que nos explicam também ser a palavra jabuti de origem tupi (iawotí), e significaria originalmente aquele “que nada respira”. Descobrimos também que a jabota se chama Luzetti e que Einar amarrou um cordão ao seu casco e na ponta dele um balão vermelho. O balão é que sinalizava por onde a libido andava, já que ela vagava lentamente, ocultando-se como se sequer respirasse.Tal como ocorre em muitos outros filmes com a mesma premissa, a mulher que rompeu com sua rotina e decidiu partir em uma aventura, cumpre a jornada e reencontra a libido. E a reencontra não só no sentido de desejo sexual, mas no sentido amplo atribuído pela psicologia e pela psicanálise, como a energia que motiva as ações, a criatividade e a própria vontade de viver.Ao final do filme, me vi também tentada a, assim como Agneta e outras personagens semelhantes, partir em uma aventura para alguma distante e charmosa cidadezinha francesa ou italiana para reaver a tal energia vital. Porém, como a maioria das mulheres de carne e osso de meia idade, esbarro nas barreiras materiais do real, tão facilmente superadas na ficção: nas contas a pagar, nos filhos e outras pessoas ainda para cuidar.Não sendo, portanto, a realidade mais uma bonita comédia romântica, resta-nos talvez como Einar gritar “como vai, minha libido?”. Com sorte ainda a encontraremos viva, respirando e caminhando ainda que devagar, em algum lugar oculto do jardim. Talvez ela não esteja representada na jabota escondida, talvez não seja sinalizada por um balão vermelho, mas em algum canto e disfarçada de algum bicho ela há de estar.