A feira de domingo estava lotada. Pessoas se acotovelavam em busca de uma mesa próxima à barraca de pastel e caldo de cana. Por sorte, encontrei um banco solitário dando sopa nas imediações. Ao meu lado, uma mulher tomava garapa enquanto observava a cena de uma mãe com a filha no colo.A menina, de uns 3 anos, comia pastel sorridente. A cada pedaço oferecido pela mãe, ganhava um beijo na bochecha e ouvia: “Te amo, filha!” A mulher então se dirigiu a mim e comentou: “O pessoal de hoje é tão diferente, né? As pessoas falam que amam com tanta facilidade... no meu tempo não era assim”.Quis entender por que ela dizia aquilo e começamos a conversar. Dona Vera, de 67 anos, contou que veio da Bahia para Goiás ainda menina. “Minha mãe era lavadeira de roupas e, com apenas 8 anos, eu já ajudava no trabalho. Nossa vida foi muito dura. Ela nunca disse que me amava e eu também nunca falei isso aos meus filhos”, relatou.A mãe insistia para que dona Vera estudasse, mas a pobreza falou mais alto e ela acabou abandonando a escola para ajudá-la nas lavagens das malas de roupas dos clientes. Aos 30 anos, conseguiu uma vaga como merendeira em uma escola da rede municipal, onde trabalhou até a aposentadoria.Dona Vera teve três filhos, criados com muito esforço. “Meu ex-marido era alcoólatra e não levava dinheiro para casa. Quando as crianças ainda eram pequenas, ele fugiu com a filha da vizinha, que tinha metade da minha idade, e me deixou sozinha para cuidar delas”, lembrou.Determinada a dar aos filhos um destino diferente do seu, fez questão de que todos estudassem e se formassem. “Para aumentar a renda, eu lavava roupas de madrugada e passava nos fins de semana. Comi arroz puro com tomate por anos, porque a carne e os ovos eram para eles”, recordou.Orgulhosa, dona Vera contou que hoje é mãe de um advogado, uma enfermeira e uma professora. “Todos trabalham, têm sua casinha e suas famílias. Inclusive, estou aqui porque o almoço hoje vai ser lá em casa. Vou preparar a moqueca que eles adoram e a sobremesa preferida das crianças”, explicou, alegre.“Mas, quando vejo essas mães de hoje, tão amorosas, acho que fiquei devendo aos meus filhos. Nunca fui de abraçar, beijar ou fazer declarações de carinho. Minha prioridade era garantir comida na mesa, saúde e condições para estudarem. Talvez eu tenha dado apenas coisas, e não amor”, ponderou.Perguntei se ela realmente não enxergava nos próprios sacrifícios uma grande prova de amor. Se acordar cedo num domingo para ir à feira comprar os ingredientes dos pratos preferidos dos filhos não era uma demonstração clara de afeto e cuidado.“Ah, eu nunca tinha pensado dessa forma... mas até que faz sentido. Posso até não dizer que amo, mas tudo o que faço é de coração”, refletiu. Contei que minha mãe também nunca foi de beijos, abraços ou declarações afetuosas, mas igualmente não media esforços para que eu e meu irmão estivéssemos bem.A maneira dela demonstrar amor era preparar a melhor comida, providenciar os remédios mais eficazes quando adoecíamos, sentar-se conosco à mesa em todas as refeições. Quando chegávamos mais tarde do trabalho, ela nunca deixava que almoçássemos ou jantássemos sozinhos.Valorizamos muito as palavras e, às vezes, esquecemos que amar é verbo. A linguagem do amor exige ação. Cuidar. Proteger. Alimentar. Incentivar. Levar. Buscar. Estar. Ficar junto nos piores momentos, mesmo em silêncio. Ouvir “eu te amo” é bom, mas ver esse amor traduzido em atitudes é ainda melhor.