Na fachada do principal prédio da Universidade de Estrasburgo, na França, foram fixados dois gigantescos banners com a imagem do historiador Marc Bloch, um dos intelectuais mais importantes do século 20 e que lecionou naquela instituição entre os anos de 1919 e 1936. Essas duas datas são significativas, já que se inserem num intervalo chamado de “entreguerras”, o hiato entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Foi nesse período que Bloch, um dos fundadores da revolucionária École des Annales, escreveu suas principais obras que, um século depois, continuam a ser referências. São de sua autoria verdadeiros clássicos, como Os Reis Taumaturgos e o monumental estudo A Sociedade Feudal.Marc Bloch acaba de ser inumado no Panteão, dedicado aos heróis e grandes personalidades franceses, o maior reconhecimento sobre seu valor para a pátria. Agora ele repousa ao lado de nomes como os escritores Victor Hugo e Voltaire e de cientistas como o casal Marie e Pierre Curie. Mais que isso, Bloch encarnou algo muito singular. Além de ser um dos maiores historiadores de seu tempo, ele também lutou nas duas guerras mundiais. Na primeira, foi para o front como soldado e combateu nas batalhas do Somme e do Marne, duas das principais do conflito, sendo ferido e depois condecorado. Quando a Primeira Guerra Mundial terminou, ele possuía a patente de capitão.Já na Segunda Guerra, Bloch estava entre aqueles que viveram a dramática evacuação de Dunquerque, quando tropas francesas e britânicas foram cercadas pelas forças alemãs. Quando viu a França ser ocupada com relativa facilidade pela Alemanha em 1940 – algo que foi evitado ferozmente na Primeira Guerra –, Bloch escreveu o ensaio A Estranha Derrota, no qual faz críticas pesadas às forças armadas francesas, que ele tão bem havia servido. Ele poderia ter permanecido na Inglaterra, para onde foi após Dunquerque, mas retornou ao seu país, para a parte da França não ocupada por Hitler, a famigerada República de Vichy, liderada pelo general Pétain, herói da Primeira Guerra e depois marionete dos alemães na Segunda Guerra. Por fim, Bloch decidiu se juntar à Resistência, mas acabou capturado e fuzilado pelos nazistas em julho de 1944.Faço este breve histórico de um dos mais proeminentes historiadores do século passado porque Marc Bloch é emblemático das belezas e dos riscos que a História corre. Sim, seu exemplo é até radical demais. Os historiadores costumam descrever os campos de batalha, não participar de seus combates. Uma das poucas exceções foi Tucídides, que a partir de sua experiência de general (ou estratego) de Atenas, nos legou à formidável História da Guerra do Peloponeso. Mas os historiadores estão o tempo todo na luta. Eles brigam contra negacionismos, revisionismos absurdos, mentiras, deturpação de versões e documentos, convivem com os ataques que buscam soterrar o conhecimento e deslegitimar pesquisas e interpretações. Não é um trabalho fácil e que nem sempre ganha o reconhecimento e a defesa que merece. A todo instante, um poderoso de plantão tenta escrever a História de acordo com suas conveniências e seus interesses. Está acontecendo agora no governo Trump no complexo dos Museus Smithsonian, em Washington.A imagem de Marc Bloch, com sua lucidez e coragem, mantidos até o fim, deve nos guiar nesses desafios. O mesmo deve ser dito sobre o Jornalismo e sobre a cultura em geral. Resiliência e sacrifício andam juntos. Que seja na boa companhia de alguém como Marc Bloch.