A mente podia vagar em labirintos, ambicionando o universal, a síntese do pensamento ocidental, coisas pretensamente elevadas para brotar num canto da América. Mas bastava descer do sexto andar do número 994 e colocar os pés na Maipu para uma verdade se impor: Borges era argentino, talvez o mais dramaticamente argentino de todos. No bairro do Retiro, a umidade que emana do Rio da Prata, pegajosa no verão e cortante no inverno, funciona como uma moldura da alma portenha. Está sempre lembrando que, por maior que seja o delírio de grandeza e a fantasia de ter chegado de barco, não há nada mais determinante do que a força do fim do mundo. É ela quem fermenta o valor. Não é segredo o desprezo de Borges pelo futebol. Em 1978, agendou uma conferência literária para o exato horário em que a Argentina, anfitriã, fazia sua estreia na Copa do Mundo. Foi um ato de rebeldia, uma sinalização de incômodo com uso político da seleção nacional pela ditadura militar. O velho era ambíguo, também acusava o peronismo de se valer da paixão pelo futebol, no que é difícil contrapô-lo. Toda ideologia tira lascas dessa hipnose.