Eu não entendia quando minha mãe me ligava de madrugada querendo saber como eu estava, depois de ter sonhado comigo. Dizia que, no sonho, eu tinha sofrido um acidente depois de beber demais. Hoje eu não sei se ela sonhava ou se usava os sonhos como pretexto para me vigiar. Ela queria saber se eu estava repetindo os homens que ela conhecia. Minha mãe se formou, mas não viveu a vida que os homens sempre viveram. Eu adorava meu curso, o campus da universidade pública, a biblioteca, os amigos. E fazia o que os estudantes costumavam fazer naquela fase da vida: estudar, encontrar os amigos às sextas no boteco, ficar bêbado, apaixonar, beijar na boca. Na faculdade, a bagunça que eu mais gostava de fazer era a de ir para a casa de algum colega da turma e jogar, beber drinks, paquerar, tudo com os nossos corpos cheios de desejo. Minha mãe não tinha vivido a universidade como eu vivi, matando os desejos. Se pude viver isso em minha vida, foi por luta dela.