Gabriel Nascente completa 60 anos de poesia, o que não é pouco. Não são muitos os que podem dizer: “A poesia é a história da minha vida. Por ela, e para ela, dei voz aos enigmas da emoção”. Não são muitos os dispostos a matar no peito tantos versos. E não consta que ele já tenha feito a contagem de quantos poemas assoprou, temperou, amassou, apertou e soltou aos quatro ventos. Mas o Gabriel nasceu assim, como uma barragem de palavras que, ao se romper, vai inundando os campos, as várzeas e os caminhos.São 60 anos. Incansável, ele desconhece pausas ou intervalos. Produz, produz, produz. Poesia, sempre. Crônicas e outros formatos em que também se aventura. E assim recebo em minha casa, além de dois livros recentes de poesia, As Lâminas da Lama e O Cálice de Orfeu, um outro, mais extenso, com muitas de suas crônicas devidamente organizadas e revisadas, A Imensidão do Ontem.Vou torcendo para encontrar, entre esses textos, um que ele escreveu há muito tempo, por ocasião de um fato estranhíssimo, que nos chocou a todos, que foi a sequência descabida de chutes que um pastor da Igreja Universal deu em imagens de santos da Igreja Católica. Ou os chutes foram dados apenas na imagem de Nossa Senhora Aparecida, não me lembro bem porque não cheguei a assistir ao desatino do sujeito, só me contaram. Li depois, e nunca vou me esquecer, a crônica que o Gabriel fez sobre o episódio, onde mostrava sua consternação e sua ternura pela santinha, que comparou a um passarinho num oco de pau. Foi um texto tão poético que eu gostaria de o reler.E por falar em palavra, no dia 29 de setembro de 1987, estávamos em minha casa comemorando o aniversário de meu caçula, Leandro (o mais novo dos meninos, bem entendido - depois dele veio uma menina, Maria), numa festa com amigos, família, e coleguinhas do aniversariante, quando alguém chegou na sala quase na hora de cantar o Parabéns, e disparou: “Vocês viram?, jogaram uma bomba radioativa lá Setor Aeroporto e outra no Bairro Popular, que podem matar todo mundo”.Como assim? Que bomba? Se a pessoa queria ganhar a atenção total e irrestrita dos adultos reunidos, conseguiu. Todos interromperam a conversa para ouvir a notícia, menos as crianças que continuaram com suas brincadeiras, sem prestar maior atenção. Mas um menino não arredou pé, espantadíssimo. Era o João, com 10 anos de idade, muita inquietação e grande curiosidade. Nos dias subsequentes, quando só se falava sobre o tal césio 137, ele ouvia tudo, muito impressionado. Quando o pai, que era físico, explicava o que tinha acontecido e o que se estava fazendo a respeito, sua atenção era total.Anos mais tarde, já formado em direito e escrevendo sua dissertação de mestrado, perguntei: Qual é o tema de sua dissertação?. E ele: “É o césio, mãe”. Durante meses ele ficou por conta da história, da substância, das nuances, dos impactos daquilo na vida das pessoas. Tudo o que se pudesse saber sobre o acidente, o João leu, pesquisou, foi a campo, conversou. Esmiuçou tudo, obsessivamente, para realizar o trabalho Acidente com o Césio 137: Pânico Social, a Comunicação e o Imaginário Social em Goiânia.E o que ele achou da série Emergência Radioativa?, alguém quer saber. Bem, ele achou que há muitas inverdades na série, dado ao fato de não ser realmente um documentário. Não parece ter havido uma pesquisa séria por parte da produção, já que, para dar apenas um exemplo, a imagem do governador Henrique Santillo foi bastante deturpada. E mais outras tantas coisas. E considera, além disso, que uma das causas desses equívocos talvez seja o fato de não existir um memorial, ali mesmo, no local da tragédia, onde as pessoas pudessem se informar sobre a importância do ocorrido, que já foi considerado o pior desastre nuclear do mundo, depois de Chernobyl.Penso que ele tem razão. E vocês?