Não sei se vocês têm a mesma impressão, mas tenho reparado, com frequência cada vez maior, que as pessoas têm agido de forma mais e mais artificial. Acredito que seja um dos efeitos colaterais da hipervisibilidade que as redes sociais digitais inseriram em nosso cotidiano de maneira avassaladora. Das viagens e pratos refinados no Instagram, às dancinhas engraçadinhas do TikTok, o número de indivíduos que fazem seu espetáculo particular para milhares – quando não para milhões – de seguidores só cresce. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo Centro de Estratégia e Regulação, ligado ao Congresso Nacional, traz um número impressionante. O País conta com quase 4 milhões de influenciadores digitais. Isso dá quase um digital influencer para cada 50 pessoas.Sinceramente, acho esse movimento natural, quando ocorre na internet. Esse pessoal, segundo o mesmo levantamento, já movimenta, com negócios dos mais variados tipos, aproximadamente R$ 20 bilhões por ano. Como mídia, um perfil em rede social tem grande potencial em termos de negócios, não há dúvida. Meu ponto, porém, não está no mundo virtual e sim na vida real, aquela com a qual temos de lidar com gente de carne e osso, estabelecer relações complexas e de impossível controle, na qual as narrativas fantasiosas e as imagens públicas diligentemente construídas costumam ruir miseravelmente.Nessa transição entre o que não é e o que é de verdade, muita gente parece se perder. Trazem para o convívio social um tipo de comportamento que é pura performance, como se estivessem o tempo inteiro sob a proteção de uma tela, em um ambiente editável. Esse atrito inevitável causa algumas situações estranhas. Uma das que mais me chamam a atenção é o que chamo de “performance do espanto”. Mas o que é isso? É aquela pessoa que, diante das situações mais triviais, das conversas mais prosaicas, dos contextos mais rotineiros, adota uma cara de surpresa, perplexidade, alumbramento. Quando topo com gente assim, geralmente por acidente, eu me sinto em uma novela mexicana do SBT ou em um filme B da Sessão da Tarde. Não consigo me concentrar em mais nada a não ser na desfaçatez dos olhos que se arregalam sem motivo, na careta que se faz sem nada que a justifique, na mudança completamente injustificada do tom de voz.Em certas ocasiões, fico com a impressão que um comentário totalmente inocente, uma resposta absolutamente inócua é capaz de provocar nessas pessoas performáticas uma espécie de transe. Elas agem como se estivessem possuídas por algum espírito de porco. Se estiverem sobre um palco, então, aí elas capricham. Uma conversa normal, um debate sereno, começa a ser contaminado por expressões de surpresa que sabe-se Deus de onde saíram. Queixos caídos voltados para a plateia, como se o interlocutor tivesse revelado o terceiro segredo de Fátima ou os números que darão na Mega Sena.Sinceramente, não consigo suportar esse tipo de coisa. Quando isso acontece, minha tendência é me levantar e ir embora. Se é para ver performance ruim, posso entrar em um serviço de streaming e procurar por algum dramalhão. No contato pessoal, na vida que é realmente vivida, minha paciência para os adeptos da performance do espanto acabou. Se não sou seu seguidor nas redes sociais, por que diabos eu o seria no mundo tangível? Talvez seja a rabugice da idade que se avizinha, mas juro que no momento em que escrevo esta crônica, não faço caras e bocas. Eu posso até me irritar com certas miudezas, mas me espantar, não, nem mesmo com esses atores e atrizes de quinta categoria que nos assombram em cada evento público.