Maldita a hora em que, no quase amanhecer, ouvindo um piado sofrido e insistente no jardim, fui ver o que era. Cariño acossava um pássaro no canto do muro. E Netuno aguardava a vez de atacar. Compadecida, eu o resgatei.Meu Deus, para quê? Para evitar a morte lenta sob tortura de gatos e submetê-la a outra ainda mais dolorosa? A pele sob as asas estava em carne viva. E minhas tentativas anteriores de salvamento de passarinhos e de outros animais nunca resultaram venturosas.Uma tarde na fazenda, eu e minha irmã vimos um filhote cair do ninho. Não sei que espécie era, não sou como minha mãe, que sabe o nome de todas as aves. Nós o colocamos de volta, antes que os cachorros o comessem. Fizemos isso várias vezes e ele tornava a cair. Talvez a própria passarinha o empurrasse. Apaguei da lembrança o fim da história.Outra vez no Ceará, achei um “passarinzinho” tombado de uma árvore. Coloquei-o num oco aos pés do tronco, pretendendo ocultá-lo de possíveis predadores. Minutos depois, estava nas mãos da italianinha para quem eu dava aulas de português. Morto. Não por culpa dela, mas porque, como observou sua mãe, veterinária, já não havia o que fazer para salvá-lo. Já devia estar adoecido ou ferido de morte.Da sorte triste de um cãozinho esquelético que uma vez recolhi na estrada, ou de um gatinho cego num lote baldio em Alagoas, prefiro nem me lembrar. Para onde quer que a gente vá no mundo, há dessas tristezas.Já bastam as vezes em que flagrei Netuno com bichos agonizantes na boca, de ratos e lagartos a passarinhos, ou em que recolhi penas e cadáveres de cambacicas e bem-te-vis.Se ainda fosse uma rolinha ou outra espécie, isso justificaria aos olhos do mundo o salvamento. Mas um mero pombo!? Pesquisei e perguntei aos amigos o que fazer com ele, já que os centros de triagem de animais silvestres não recebem essas criaturas urbanas abundantes, consideradas pragas.Coloquei-o em uma caixa de sapatos forrada e furada, e tranquei-o num quarto a salvo dos torturadores. Netuno namorava a porta, na esperança da presa. E a vítima quietinha, já sem piar, na esperança renitente da vida. Oh, céus!Os amigos me aconselharam a passar antisséptico nas feridas. Meu filho se alarmou: “Coloque luvas, pois eles transmitem doenças aos humanos”. Eu não sabia quem tinha mais medo de quem, se o pombo de mim ou eu do pombo. Coloquei.A diarista falou que ele era pequeno demais pra se alimentar sozinho, que eu deveria enfiar a comida e água pelo bico. Resisti, mas o fiz, ao notar que ele não comia nada que eu lhe servia. Tinha um biquinho torto.Cheguei a identificar melhoras – ele batia as asinhas tentando voar. Mas reparei, consternada, que havia uma ferida ainda maior sobre o dorso, escondida sob as asas antes fechadas. E que horror foi vê-lo bicar cegamente o piso procurando a comida intangível. Consegui ao menos fazer com que bebesse água. Tive esperança.Prometi que no dia seguinte procuraria um veterinário. Mas ele amanheceu durinho. Me senti muito mal, culpada mesmo. E se fui eu que o matei de inanição? Voltaram recordações da época em que meu filho nasceu e eu sonhava que não era capaz de cuidar dele. Coisas terríveis aconteciam nos pesadelos.Descartei o corpinho no lixo com caixa e tudo, sem cerimônia funerária. Desinfetei o quarto, mas continuei a sentir a presença do pássaro. Fiz uma anotação mental: da próxima vez que ouvir um piado, não vá olhar, deixe de lado. Bichos que resolvam as suas questões de cadeia alimentar e seleção natural. Já bastam as tragédias humanas. Pense só na pomba da própria paz.E anotei ainda que, a partir de agora, vou escrever histórias com final feliz, como a das ararinhas-azuis, nascidas nos ninhos artificiais criados pelo fotógrafo Nunes d’Acosta em Firminópolis, ele sim verdadeiro salvador de aves.