Estamos em setembro de 2004. Fabiano chegara aos 30 anos com a percepção limitada pelos refrões vocálicos do axé, trilha sonora das bebedeiras com os amigos, e pelo mormaço da Mata Atlântica, onde, às margens de um rio de águas caudalosas e barrentas, os alemães fundaram a cidade em que ele nasceu, cresceu e se intoxicou de provincianismo. Talvez por cansaço inconsciente da estreiteza desses dias barulhentos, resolveu desvirginar o passaporte em Londres. Sofria as angústias de um monoglota quando embarcou em Victoria, estação mais próxima do único Bed e Breakfast que coube no bolso – a cama tinha a textura de uma laje de concreto e o desjejum se resumia a um chá ralo com torrada de bordas carbonizadas. Era um tempo ainda sem smartphones, aquele outono europeu. No vagão, tenso quanto ao destino, abriu o mapa do Tube, alargando demais os braços. O cotovelo roçou imprudentemente das sardas do rosto de uma britânica de cabelos ruivos, que reagiu: