Este ano resolvi comemorar meu aniversário distante das redes sociais. Fiz uma curta viagem de dois dias, uma brevíssima fuga. Fora da minha rotina, consegui me afastar do celular ignorando demandas de trabalho, fiz apenas consultas esparsas ao longo do dia para responder aos primeiros cumprimentos. A ideia era não parar a vida, mas ficar tranquila.“Compartilha meu stories, mãe” – era a sócia que tinha publicado uma bonita homenagem pra mim. Uma poeta acreana me ensinou que, quando a pessoa publica na web com marcação, ela quer ser compartilhada. Só não funciona assim em casos de ofensa, injúria e dano moral.Atendi ao pedido da minha filha e, curtindo rolês aleatórios de aniversário com a natureza, não me toquei que aquele compartilhamento ativaria a minha rede desavisada. Fiquei muito feliz pela disposição das pessoas em me desejar coisas boas. Algumas com o texto pronto, outras dedicando tempo e imaginação para personalizar. Fiquei me sentindo amada por todas, todes, todos.Respondi aos cumprimentos em prazo médio, mais prontamente a quem me alcançou pelo zap. As mensagens que chegaram pelo Instagram eu dei retorno em blocos, entre uma coisa e outra, sucumbindo à curiosidade. Era noite quando fiz um modesto photo dump e começou tudo de novo. Eu havia boicotado o projeto off, mas deixei a bateria descarregar para me sentir novamente “no controle”.Quando voltei a rolar o feed com vontade, me deparei com uma notícia do jornal O POPULAR: o governo de Goiás havia decretado situação de emergência devido à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Bateu umapreocupação instantânea e li outras matérias sobre o assunto para não me alarmar. Me alarmei. Os casos registrados estavam chegando a 3 mil, com 118 pessoas mortas. As principais vítimas eram menores de 9 e maiores de 60 anos.Enviei o link para a família e liguei para a minha mãe querendo saber se ela estava imunizada. Segundo a imprensa, a campanha gratuita de vacinação contra a gripe estava atendendo grupos prioritários, mas tinha baixa adesão (cerca de 17%). E ainda: as vagas para UTI na rede privada, em Goiânia, tinham perspectiva de colapsar. Fiz contato com uma amiga que trabalha na saúde pública e ela foi atenciosa comigo, buscou informações. Eu querendo não parecer louca, mas não adiantou.Era sábado e eu tinha combinado um almoço divertido, com feijoada vegana. Então fui até a farmácia mais próxima e comprei máscaras descartáveis de dois modelos com sobra para oferecer a quem precisasse. Perguntei pela disponibilidade da vacina e a atendente comentou: “Pra gente só vai chegar na semana que vem, acabou tudo. Está difícil de encontrar, mas vou ver aqui no sistema pra senhora... Tem não”. Cancelei o samba.O Instagram agora me entregava a entrevista com uma especialista que falava em 50% de chances de uma nova pandemia mundial a qualquer momento nas próximas duas décadas. Também veio pra mim posts nostálgicos e recentemente compartilhados sobre o genocídio ocorrido no Brasil sem vacinas contra a Covid-19, por descaso do governo Bolsonaro.Passei o final de semana trancada em casa, alimentando a paranoia longe das telas. Ademais, notícia ruim chega a cavalo. Era abril, sol intenso na casa de Áries, justamente naqueles dias em que a conjunção astral não estava para amadores e amadoras. Sete planetas reunidos, tensionando, soterrando, libertando também.Já vacinada contra a Influenza, regressei aos domínios do algoritmo em busca de desgraça. Rolei o feed pra baixo e rolei pra cima desconfiada. Nada sobre a SRAG para mim. Quase tudo era o show da Shakira, em Copacabana. Será preciso dois milhões de máscaras, pensei.