Se você já perdeu um trem e saiu a procurá-lo, tem grandes chances de encontrar, não o trem de você extraviado, mas um trem perdido por outrem. Ou talvez até ache um trem que você mesmo perdeu, porém outro, não aquele que procurava, um de cuja existência há muito se esqueceu. Ou quem sabe ainda, se saiu sem investigar o paradeiro de nada, encontre um grande sortimento de trens desgarrados de outras pessoas. Já aconteceu comigo e parece acontecer ainda frequentemente. Nos quase cinco anos em que morava e caminhava à beira-mar, perdi uma boa quantidade de coisas, principalmente óculos. Nunca os encontrei, claro, mas a lista dos legados de praia que achei poderia preencher toda esta página. Chinelos; ligas e presilhas de cabelo; isqueiros; cangas; roupas de banho; brincos; colares; baldes, pazinhas e outros brinquedos de cavoucar, recolher e esculpir areias; óculos, vários pares deles; celulares; até uma chupeta e uma lixa de pé. Certa vez, desenterrei um celular quase que completamente sepultado na areia.