Toda madrugada eu acordo, entre as 3 e as 5 horas, para ir ao banheiro. Um hábito que, quando eu era pequeno e via meus pais e meus avós fazerem, achava que era coisa de velho. Mas voltando, pois o que eu queria contar era outra coisa. Desde que me mudei para o apartamento em que vivo hoje, há três anos, uma formiga me acompanha no xixi da madrugada. Eu sei que ela está lá na privada, debaixo da tampa ou escondida atrás do vaso. Eu sei que ela está descansando naquele lugar de paz que encontrou no meu apartamento. Então eu apareço devagar, para não assustá-la, mas ela sempre se assusta e corre pela tampa e escorrega pelos fundos da privada como um bombeiro profissional num filme de ação norte-americano. Sinto pena da formiga, que deve ter tido mais um dia difícil: pouco açúcar na casa, pouco doce, um aspirador que a persegue dia sim dia não, nenhum outro inseto para brincar. Acordo na madrugada e faço tudo com muito cuidado, para não acordá-la de repente, para não tirá-la de um sonho doce, do seu momento mais tranquilo aqui dentro.