No dia 5 de março, morreu o escritor português António Lobo Antunes. Tinha 83 anos de idade. Para o meu gosto, o maior prosador da história da língua portuguesa. Prolífico, autor de obra extensa (32 romances publicados entre 1979 e 2022, além de livros de crônicas, correspondências e infantis), Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa. Médico de formação, atuou na Guerra de Libertação em Angola entre 1971 e 1973. De volta a Portugal, especializou-se em psiquiatria. As experiências no front marcariam sua vida e, por conseguinte, a obra literária futura. É a guerra, aliás, que ele genialmente aborda já em seu segundo romance, Os Cus de Judas (1979; a edição brasileira mais recente é da Alfaguara). Ainda aferrado à narração febril de uma só primeira pessoa, começa a desenvolver nesse livro a imageria e a pegada que o tornariam único. Eis um exemplo, mantendo a grafia lusitana: “A pouco a pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosques magros, os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o céu e a noite do iodo dos daguerreótipos desbotados, haviam-nos transformado numa espécie de insectos indiferentes (...)”.