Não quero ver agora, obrigada. Nem foi uma resposta rude, apenas sincera, mas o escritor se ofendeu. Recolheu o livro que havia me estendido e que, não fosse minha esquiva, teria tocado meu corpo. Eu teria sido então levemente golpeada, na FLIP, por um livro de poemas que veio ao mundo sem uma editora.Bom dia! Esse é o meu livro! Enquanto o escritor independente atacava novamente, eu já observava de longe aquela estratégia fundada em pegar de surpresa qualquer pessoa que atravessasse, especialmente aquelas com os olhos fixados no calçamento de pedras para evitar uma queda. Fiquei imaginando a cadeia produtiva envolvida naquela publicação: a mãe revisou, a irmã desenhou a capa e o próprio poeta diagramou, com a ajuda de tutoriais disponíveis na web. Essa é a realidade de muitas autorias autopublicadas — um jeito de realizar o sonho de ser escritor ou escritora — amparas no espírito do movimento punk, profundamente inspiradas pela insígnia DIY (do it yourself, ou seja, faça você mesmo).Um caso bem-sucedido dessa sangria desatada é o cearense Mailson Furtado, autor do livro À Cidade, ganhador da categoria Livro do Ano do Prêmio Jabuti, em 2018. Muita gente ficou de cara com isso, eu celebrei. Porque Mailson representa uma grande massa de escritoras e escritores angustiados, que realizam o sonho de publicar o livro e só. Mais nada acontece em seguida. Aquela pilha de papel mal-amado deprimindo a família toda no canto da sala.Mailson é mesmo único, é o que o pessoal chama de “case”. Não se tem notícia de outro milagre assim. Repare que não estou botando pouca fé na produção independente e cuspindo no prato que comi. É claro que pode haver bons livros que tenham sido autopublicados, mas não chegamos a conhecê-los. Geralmente são invisíveis, ou melhor, estão invisibilizados, não circulam o suficiente, são evitados inclusive por mim nas ruas de Paraty.Em muitos casos, um livro editado e publicado pelo próprio autor ou autora surge de frustração pela ausência de retorno ao e-mail enviado à editora favorita com o manuscrito em anexo e, naturalmente, pela força daquilo que teima em existir. Mas esta não é a história de todo mundo. Há quem tenha demonstrado a verve da autonomia desde o princípio e fez por si.A produção amadora do livro envolve paixão e intensidade, como num relacionamento romantizado. Inventado também. Antes do livro, o escritor se inventa. A baixa qualidade editorial e gráfica do objeto acompanha baixa tiragem e baixa venda. A autopublicação é tanto motivo de orgulho quanto de revolta para quem persegue o status de escritor convidado para a programação oficial da FLIP, porque acredita que tem nas mãos um potencial best-seller que só precisa de uma chance. Assim, o poeta segue assombrando pessoas apenas preocupadas em evitar o vexame do tombo. Não há como julgá-lo. Ele é um de nós, só que com autoestima elevada e disposição para se arriscar. E diante de sua resistência, Mailson reverbera lindamente: “eu mesmome inventocomo o menino se inventaem heróiem santoem homemme inventoem tantosem paiem senhor(quando a atendente da central telefônica de cartão decrédito me liga)em qualquer umem mim mesmome inventome inventam”[Enquanto eu pensava em possíveis soluções para tanta angústia, um vulto delicado, imperceptível para os dispersos, pousa na mesa do restaurante um bilhete com pedido de ajuda para pagar os estudos. Envio o pix.]