Perto de se despedirem, ela foi tomada por uma aflição de ausência antecipada, uma sensação de nunca mais que costumava experimentar, mesmo se a situação fosse um mero até breve. - Quero uma declaração. - Recebeu de volta um olhar irônico e um sorriso. Não se deu por vencida, insistiu. - Mas eu preciso. - Não, não falo. De antemão sabia da negativa, mas a necessidade de garantia, de certeza, de intensidade, de um para sempre, embora nem saiba o que é isso, a necessidade de se ancorar nas palavras era imperiosa. Teve de engolir mais uma vez o vácuo em que se desfazia quando a porta se fechava e ela ia em frente para prosseguir nos pequenos e salvadores afazeres de uma rotina sem sobressaltos. Palavras salvam e aprisionam, na ilusão de definir, recobrir, conter a realidade, quando sabemos da imensidão que escapa a qualquer alcance de compreensão e expressão falada, escrita, simbolizada. Não bastavam a intimidade, a cumplicidade, a intuição do que era compartilhado no indizível?