Tenho quase certeza de que falta algo ali, bem no meio daquela avenida espremida entre prédios comerciais, lojas de veículos e restaurantes. Mas não consigo identificar o que é; apenas noto a grande luz vermelha indicando que é hora de parar, e suas similares avisando, em dupla, que tem gente desacelerando logo a sua frente. Passo por ali quase todos os dias, há anos, e agora o único pensamento que vem à mente é uma pergunta: “O que está faltando ali?”. Sim, é ela! A praça! — um exagero, na verdade, chamá-la assim, pois era tão pequena; talvez rótula seja uma definição melhor, mas essa é uma palavra tão feia para nomear aquele miúdo oásis de flores alaranjadas que deu espaço aos automóveis. Daí a memória avisa: ali havia a Praça do Relógio. Uma joia quase imperceptível em meio à correria cotidiana, mas que agora não existe mais. Conversando com um amigo, uma dessas pessoas ligadas às coisas ambientais, ele me explica: “Tem coisas que a gente não vê conscientemente, mas que a visão periférica capta e se tornam pontos de referência”.