Uma condessa oitocentista que costuma me ditar seus aforismos, muitos dos quais desaforados, me disse certa vez, em uma de nossas comunicações literárias mediúnicas, que “o coração é somente um apêndice idiota do desejo, feito apenas para supurar e dar despesa”.Descrente já no seu tempo do ideal amor paixão, ela acreditava que este era um sentimento que brotava no baixo ventre. Os poetas é que, para se se fingir de elevados, o atribuíam ao músculo inútil do coração.Se na época em que a dama viveu – ela nasceu e desencarnou no século 18 – ela bem teria desalojado de sua caixa toráxica o tal apêndice. Se a medicina já estivesse tão desenvolvida como agora está, teria de igual maneira removido algumas das costelas, para afinar a cinturinha de vespa.Lasciva e vaidosa, certamente se valeria igualmente dos avanços da cirurgia estética, para substituir os murchos seios de pera por próteses rijas, as ancas estreitas por nádegas arredondadas, corrigiria o nariz adunco e injetaria na face substâncias para elevar as maçãs do rosto, avolumar os lábios e afinar o queixo.Quiseram, porém, a história e a ficção que desencarnasse muito antes dos avanços médicos do século 21 e antes que seus atrativos para os cavalheiros desaparecessem por completo. Disse-me ela que a iminência da decrepitude lhe trouxe algumas compensações. “Uma dama fogosa, quando se lhe apaga o fogo das águas, acende-se o fogo das ventas”.Contou-me ter ficado mais segura, corajosa e belicosa depois da menopausa – os médicos de senhoras não usavam o termo, empregando a expressão “idade crítica” para se referir ao término da menstruação. Cresceram-lhe, é verdade, os bigodes, o que por um lado considerou bom, já que com mulher de bigode nem o diabo pode. Finalmente livre dos hormônios desatinados que obrigam a mulher a servir à natureza – o tal desejo reprodutivo disfarçado de amor – estava pronta a servir à sociedade.Não teve, porém, tempo de fazê-lo, tampouco de se dedicar às altas cousas do espírito de que em geral somente os cavalheiros podiam ocupar-se, pois foi abatida antes por uma febre pulmonar, já que não podia contar na época com a penicilina, só mais tarde descoberta.O mundo perdeu assim precocemente aquela dama que poderia ter sido, se as circunstâncias históricas o tivessem permitido, uma livre pensadora. Mas nem tudo está perdido, mesmo com a morte. Graças à literatura, podemos ainda hoje nos comunicar. Ela, aliás, sabendo que escrevo para um folhetim, gosta de me ditar seus aforismos e me fazer admoestações, assim como a outras damas de meu tempo.Nossa última comunicação não se deu, contudo, por iniciativa dela, mas porque eu mesma a invoquei. E a ela me dirigi para queixar-me e quem sabe obter algum conselho consolador. É que, achava eu, como ela, que alcançando a “idade crítica”, estaria enfim livre da escravidão à natureza. Qual o quê!Se condessa tivesse ultrapassado os cinquenta janeiros como eu, saberia que, com o tempo, é que a natureza reafirma o seu império. Não só o coração se torna um órgão romântico inútil, mas nossos ovários e útero. Aqueles pelo menos vão secando até praticamente desaparecer por completo, ao passo que este persiste, tornando-se também um apêndice desnecessário que, se não inflama e infecciona, gesta miomas e outras torturas.Pois a dama respondeu-me, do alto da sabedoria que a pós-morte lhe deu, com mais um de seus aforismos. Que eu removesse o órgão sem afligir-me, pois, eu vou constatar, mais cedo ou mais tarde, como ela mesma constatou, que “o corpo é ele todo apenas um mero apêndice da alma”.