Dois corpos humanoides reunidos. Bumbum contra bumbum. Uma seta que vem de cima aponta o ponto de contato entre eles. A pintura rupestre encontrada com recorrência na região da Serra da Capivara, no Piauí, não é menos curiosa que a descrição que foi dada a ela: “cenas desonestas”. Assim ela teria sido apresentada pelo guia que conduziu a arqueóloga Niède Guidon, em sua primeira visita ao lugar que se tornaria um dos mais importantes parques brasileiros. Localizado na região sudeste, o Parque Nacional da Serra da Capivara tem 30 mil hectares, no sertão nordestino.Ouvi essa história, que segue difundida nos passeios guiados de agora, achei uma certa graça momentânea e também quis recontar. Para isso, tive que anotar aquelas palavras, afinal, por várias vezes, eu as procurava na memória e não as encontrava. Talvez porque o encontro de bundas não me sugira vilania alguma. Até dediquei tempo ao entendimento dessa expressão e cheguei a consultar um de meus oráculos mais preservados, a quem incomodo com parcimônia. Chegamos à conclusão de que é impossível esclarecer a intenção do guia, por certo, mas me pareceu um daqueles momentos em que a sociedade contemporânea se conecta com o passado e, sem o contexto do outro, não resiste e o classifica de maneira leviana, ou não.Em um dos sítios arqueológicos mais surpreendentes do parque, onde o sertão já foi mar, está um famoso beijo. Seria uma manifestação romântica dos povos pré-históricos da América Latina? Um beijo só, e por isso tão especial. Afinal, mais comum são as pinturas rupestres de cenas de afeto e contato físico mais hardcore, sem guardar pudores heteronormativos, inclusive.Dentre os estudos ali realizados uma noção comunitária me chamou a atenção. O guia Evair, que também é historiador, relatou que os artistas que deixaram pinturas nas paredes de pedra eram também caçadores-coletores nômades. As escavações nunca desenterraram cemitérios. O nomadismo também se revela pelos calendários feitos com risquinhos verticais, que evidenciam a brevidade dos dias de fixação dos chamados “grupos familiares”. As escavações mostram que nessas aglomerações havia uma espécie de limite de convivência e que elas começavam a se dissipar – desentender-se, eleger novas lideranças, tomar outros rumos – a partir da reunião de 100 a 150 pessoas. Considerando nossas condições de coexistência nas cidades, no século 21, considerei bem tolerante o ser humano pré-histórico.Ali as pinturas rupestres catalogadas são mais de 1.300, mas o acervo existente é muito maior. Espécies da flora e da fauna, cenas de caça, celebrações em pequenos grupos, brincadeiras, o momento do parto e muito mais sobre o cotidiano da ocupação iniciada a 50 mil anos. Impossível não lembrar e comparar com o pixo urbano, enquanto manifestações da mesma natureza.Enquanto escrevo a segunda crônica dedicada a esta viagem ocorrida em maio, vou me afastando mais e mais da caatinga e observando o que fica, o que se aparta do borrão dos dias, desde o retorno para casa. Que histórias seguem teimosas e ainda despertam a vontade de serem compartilhadas. Quais momentos não perco de vista no olho da nuca.O jeito dengoso de Maria Carol, a familiaridade instantânea entre Blenda e os poetas do slam, o garboso penteado triangular de Dandara, Carla feliz tomando um sorvete gostoso (cabelos presos como preferia o avô), Nazilene me fazendo pensar sobre o dharma dos braços em relação à performance do boneco de posto.Ah o Piauí, lugar de águas profundas y de encontros ancestrais.