Estávamos conversando, aqui em casa, sobre esses momentos — na história e também na vida comum — em que o mal parece ganhar uma espécie de vantagem silenciosa. Não é o mal espetacular, de grandes gestos, mas aquele que se infiltra: entra pelas frestas, ocupa os intervalos, se instala nas pequenas coisas. Quando se percebe, já não está mais à porta — está dentro. E, então, mesmo pessoas essencialmente boas, ou despreparadas para reconhecê-lo, descobrem tarde demais que já houve estrago.Talvez seja por isso que certos episódios históricos nos perturbem tanto. Não apenas pela escala, mas pela lógica: como foi possível que algo como o regime de Hitler (para não mencionar os horrores atuais) tenha se consolidado, pouco a pouco, sob os olhos de uma sociedade inteira? Como tantas pessoas comuns — muitas delas corretas, afetuosas, civilizadas — não conseguiram deter aquilo que hoje nos parece evidentemente monstruoso? A resposta não é simples, mas passa, talvez, por essa dificuldade de reconhecer o mal quando ele ainda não se apresenta como tal.Penso nisso ao lembrar de um lugar que, durante toda a minha vida, foi o contrário disso. Um clube. Um espaço de convivência, de descanso, de alegria partilhada. Foi um pouco por ali que fui adolescente, onde levei meus filhos pequenos para nadar, celebrei festas, casamentos, e até as bodas de ouro dos meus avós. Um clube é, por definição, um acordo entre pessoas que se reúnem para conviver e que, juntas, estabelecem regras que reconhecem como legítimas.Mas algo começou a mudar. Não foi de uma vez. Não houve anúncio. Não houve ruptura clara. Foi, como costuma ser, um processo. Primeiro, pequenas alterações nas regras, justificadas, técnicas, quase burocráticas. Mandatos que se alongam, reeleições que deixam de ter limite claro. Depois, mudanças mais incisivas: penalidades mais duras, processos mais rápidos, decisões concentradas. A figura do presidente se distancia dos demais. O que antes era serviço passa a ser remuneração. O que era transparência começa a se tornar opacidade.E então, sem percebermos, o ambiente se transforma. Câmeras aparecem, não apenas nas entradas ou por segurança, mas voltadas para áreas de lazer, para pessoas em recreação, para momentos que antes eram livres de vigilância. Sócios começam a ser advertidos, depois suspensos, depois afastados. Sempre por motivos que parecem, isoladamente, justificáveis, mas que, somados, formam um padrão inquietante.Há um clima novo, difícil de nomear. Como se todos estivessem, de alguma forma, sendo observados. Como se a permanência ali deixasse de ser um direito e passasse a depender de um julgamento constante. Alguns são “eliminados”, quase como em um reality show, e o termo não parece exagero.Grupos se formam, protestos surgem, ações judiciais são propostas. Mas o tempo da justiça é outro, e o desânimo vai se infiltrando também. Muitos desistem. Outros permanecem, mas em silêncio.E, como em toda narrativa que se obscurece, surgem os rumores. Correm rumores de que interesses maiores estariam em jogo, construtoras, empreiteiras, projetos que nada têm a ver com o espírito original daquele lugar. Já se viu isso antes. Outros clubes da cidade desapareceram assim, lentamente, até que um dia deixaram de existir, como o Jóquei Clube, o Cruzeiro do Sul.Talvez o que esteja em jogo não sejam apenas estatutos, mandatos ou balancetes, tudo isso importe, e muito. Talvez seja algo mais difícil de quantificar: um modo de vida, uma forma de convivência, a qualidade mesma de um bairro, de uma cidade.Hannah Arendt falou da banalidade do mal, dessa capacidade que ele tem de se apresentar como rotina, como procedimento, como normalidade. Mas há também algo de profundamente perturbador quando ele se torna ambiente. Quando já não é um ato isolado, mas um clima.Um dia, tudo isso será esclarecido. Resta saber quanto ainda se perde até lá.