Uma gameleira. Uma azeitoneira. Um cajueiro. Um jacarandá mimoso. Seria possível ordenar as lembranças de uma vida a partir das árvores das casas em que se morou e dos jardins que se teve? Experimento fazê-lo, inspirada pela escritora espanhola Rosa Montero, que diz organizar as dela “em torno de um rol de namorados e livros”. Neste momento, atenho-me apenas às primeiras, deixando os jardins para outra crônica.Ao eleger as plantas como critério de organização da memória – eu e você poderíamos escolher algo mais prosaico e prático, como carros ou empregos – percebo que não foram muitas e que passei grande parte de minha vida sem um mísero pé de mato por perto. Ou melhor, só convivi com a flora na infância, permanecendo afastada dela durante toda a juventude, e só voltando a me interessar e interagir com os vegetais vivos na maturidade.A gameleira foi minha primeira árvore. Desde que me entendi por gente ela já existia na fazenda onde meus pais moravam e na qual eu passava as longas férias escolares. Ela tinha a minha idade, mas certamente cresceu muito mais rapidamente, pois aos 8 anos eu já vivia em riba de seus galhos grossos, embalando a imaginação com sua copa imensa. Infelizmente, não sobreviveu a mim. Morreu antes, adoecida e desmoronada sobre os próprios galhos.Depois de sua partida precoce, não tive mais casa na árvore nem arbusto nenhum para chamar de vizinho, nem sequer defronte dos diversos apartamentos desérticos que habitei. Até que finalmente, mudando-me para o Ceará, passei a conviver com uma frondosa azeitoneira diante da varanda. Era na verdade um jamelão, onde pousavam não apenas pássaros, mas iguanas a se balançarem ao vento.A azeitoneira foi minha companhia por três anos, mas logo precisei me mudar para outra casa, onde me aguardava um exuberante e prolífico cajueiro, que deixava o jardim coalhado de cajuzinhos doces. Foi nessa época que me senti a própria Cássia Coralina, escritora e doceira.Como, porém, acabou-se o que era doce, voltei a viver em Goiânia. Por sorte, pude usufruir por dois anos da convivência com um bonito jacarandá mimoso, plantado diante da varanda e que, nos períodos de seca, infestava, ou melhor, enfeitava meu quarto de pequeninas flores roxas.Pois, conforme já contei na crônica passada, ao me mudar mais uma vez, doeu-me ter de me despedir do jacarandá, mas me alegrei ao ver, não exatamente diante de meu portão, mas um pouco mais à esquerda um belo ipê branco. Constatei também com um misto de pena e alegria que na calçada existe o espaço para o plantio de uma outra árvore. A que ali havia foi cortada pelo antigo proprietário por não sei qual motivo. Talvez estivesse adoecida, talvez ameaçasse o telhado ou os fios de eletricidade.Deduzo pela grossura das raízes ainda entranhadas no cimento que possuía tronco volumoso e copa vasta, e fico sabendo que, para solicitar à Prefeitura o plantio de uma substituta, devo eu mesma providenciar a retirada das raízes, com todo o cuidado para não atingir tubulações de água ou esgoto.Decido então arcar com os custos desse serviço, pois já cheguei àquele momento da vida inteira em que, já criado o filho e já escrito o livro, me resta ainda o dever do plantio. Ainda não sei que espécie será plantada, mas espero que sobreviva a minha própria partida. E espero principalmente que viva em uma cidade onde as casas sejam construídas em torno de árvores e que estas não sejam mais arrancadas como estorvos.