Meu caçula foi aprovado no vestibular para a Faculdade de Economia da USP, mas, por favor, fiquem aí. Prometo não tomar o tempo de vocês com manifestações efusivas de orgulho paterno, até porque isso já fiz desavergonhadamente nas redes sociais. Lá é o lugar para a gente mascarar nossas vidas ordinárias com hipérboles. Deixemos os jornais para coisas mais nobres.Bem, ao dar publicidade do feito do meu pequeno na mais senil das redes, me veio uma advertência, sintomática dos nossos tempos. Partiu de uma pessoa por demais querida, a quem devo a luminosidade de alguns verões da minha infância. Hoje, como ocorre com outros muitos e em escala crescente desde o fatídico 2018, não nos restam intersecções na visão de mundo. Mas algum afeto sempre fica, e é importante que seja assim.Escreveu-me essa pessoa, entre os parabéns sinceros à aceitação do guri pela mais prestigiada universidade do País. “Eu, particularmente, tenho medo do que as nossas crianças vão encontrar no meio universitário, nesse estranho país em que o Brasil se transformou.”Não precisa ser versado em análise do discurso ou semiótica para notar que, aqui, há clara referência à fantasia da doutrinação de esquerda nas universidades. Coloco esse tema na esfera do delírio não porque não haja nas disciplinas de humanas uma inclinação de pensamento. Há, e às vezes é meio indigesto manifestar ideias dissonantes. Na Medicina, na Engenharia, em algumas escolas de Direito, a inclinação é outra, também é meio indigesto manifestar ideias dissonantes, mas isso jamais configurou problema para esses fiscais do magistério.O que me espanta nessa fabulação, repetida à exaustão na órbita da extrema-direita mobile phone, é a ingenuidade da crença na neutralidade. Algo desprovido de uma intenção é antihumano. Nós só agimos intelectualmente a partir de uma concepção, de uma ideia. Tenha lido Marx ou a Bíblia, devorado hóstias ou criancinhas, todo mundo fala movido por alguma convicção.Também me assusta que adultos ingressando no ensino superior sejam tratadas como “nossas crianças”. No afã de proteger feto do aborto, criança da pedofilia, essa gente está esticando a infância dos brancos até idades indecentes. De minha parte, creio com ganas na capacidade de discernimento dos jovens, mesmo diante da inegável autoridade de um professor. É um desrespeito tratá-los como cérebros amorfos, porosos a qualquer idiotice sustentada em meia dúzia de frases prontas. Nossa visão de mundo é multifatorial, uma soma de experiências, leituras e relacionamentos. E também sensorial. A gente vê, ouve e cheira um país. Meu filho mais velho estudou em colégio de burguês e, ao que me consta, não vota no Novo.Há ainda um último subtexto na mensagem, não menos digno de leitura nas entrelinhas. O “estranho país em que o Brasil se transformou” não deve ser em comparação ao quadriênio anterior, porque o grau de insanidade foi exagerado até para o baixo calão das repúblicas tropicais. Se for em relação ao que somos desde 1500, bom, então temos aí uma linda notícia. Isso aqui sempre foi um lugar horroroso para mulheres, pretos, gays e qualquer gente que não reze pela cartilha da elite real (raros) ou imaginária (muitos). Diante desse normal, estranheza é bênção.Prometi que não ia me vangloriar do meu menino, mas, ao fim desse texto, fraquejo. É muito legal extrair realização e esperança daquilo que amedronta os caretas, Olavo.