A religião católica prega, em um de seus motes mais fortes, fazer o bem sem olhar a quem, numa toada de amabilidade universal, sem distinções. Será que caso a Santíssima Igreja fosse fundada hoje, em tempos hostis como este, a sua afirmação seria tão categórica assim? Suspeito que ninguém mais queira fazer bem a todo mundo sem olhar a quem, todo mundo tem ranço de alguém e estamos em paz com o fato de estarmos em guerra. Para mim, foi uma luta interna até aceitar o ódio por outras pessoas, a culpa me deixava cego, fazendo com que eu gostasse até de quem me era desprezível. Entender isso foi um caminho sem volta, perdi a paciência de manter amizades com quem não se encaixa com o meu credo, com a minha filosofia. Me distanciar de quem nada agrega virou um hobby, por mais doloroso que seja. Levo a vida atualmente numa corda bamba, me esforçando para gostar das pessoas mesmo com seus defeitos. Só que é difícil, no primeiro sinal de descontentamento já ligo o alerta laranja, com medo dele logo virar um vermelho. Foram muitos anos andando com pessoas que não me diziam nada, agora o que sobrou é o medo de que novos rostos causem as mesmas cicatrizes.