A mulher entrou no bar vazio. Sexta, fim de tarde. Ela se sentou de costas para a TV, concentrada no celular. Em curtas mensagens de áudio, fazia um relato da reunião que tinha terminado com grande sucesso e promessas de felicidade. Pediu uma cerveja para comemorar. Tudo era divino e maravilhoso. A equipe dos sonhos formada por mulheres de todo canto do país, perfis diversos e gana para executar o projeto com sangue nos olhos. Próxima reunião agendada para a semana seguinte, mas era grande o entusiasmo e a mulher começou a rabiscar ali mesmo a pauta. — Liga a TV pra gente, fera! — Aquele comando rasgou o ar, abruptamente. A mulher manteve o foco nas anotações até que um vozerio grave e muito audível se instalou na mesa imediatamente atrás dela, tendo dezenas de outras opções com vista para o telão. Indignada, não se virou, recrudesceu.— Tá baixo esse volume, irmão.A paz roubada pela Bósnia e Herzegovina. Copa do Mundo tem essas chatices para quem não se envolve e, apesar das providências exigidas, os vizinhos de mesa não demonstravam interesse imediato na partida contra o Canadá: “Ainda tá com aquela gata?”Não que a mulher estivesse atenta à conversa alheia, mas a pergunta foi feita em altíssima voz. Depois de uma longa pausa para a contemplação do replay dos corpos se atritando atrás da bola, o outro comentou aos berros: “Não, eu quase não tinha conversa com ela. Nova demais...”Até que o garçom chegasse com uma rodada de bebidas, ouviu-se somente a monótona locução do jogo. Ela pensou em fazer logo o acerto e vazar, mas ficou curiosa pelo andamento da prosa quando o homem retomou explicativo o assunto: “Mulher é tudo igual, né”. Num final de semana qualquer, ele contou ter alugado um carro e um chalé para levar a novinha a um passeio no Lago das Brisas. Disse que, apesar da viagem silenciosa, chegou todo animado ao destino final, descarregou as compras e se deitou na cama. A moça resolveu tomar um banho. “Era a dica que eu aguardava para tomar o meu Viagra”, lembrou. A audiência não comentava, o jogo rolando, o bar enchendo e o homem continuou a história com sua voz de trovão:— Aquele trenzão deitado do meu lado de cabelos molhados... Eu falei, vem cá. Ela falou, vamos dar um passeio.A mulher esperou alguma reação, porque aquela parte da história parecia ser muito engraçada, mas talvez não fosse. Quis olhar disfarçadamente para a mesa de trás como quem se interessa subitamente por um lance de quase gol, aproveitando a oportunidade para sacar o perfil do narrador. Tomou mais um gole de cerveja e ficou na dela. Em breve pediria a conta e, na saída, faria um escaneamento completo do bando de garanhões.A narrativa seguia tragicômica e até o garçom ficou sabendo em seguida que o HB20 locado não deu partida. “É problema de bateria”, teria sentenciado o homem que aguardava, a qualquer momento, tanto a manifestação do citrato de sildenafila quanto o motoqueiro enviado pelo seguro para fazer uma “chupeta”. Gol. Um golzinho de cabeça. Não chegou a levantar a torcida do bar, mais concentrada no momento em que o homem confessou que o carro tinha morrido mesmo, que não houve ressurreição, que chamou um guincho e, antes que escurecesse, regressou em silêncio para Goiânia na companhia da moça, olhos fixos na paisagem.— Terminei com ela naquele dia mesmo, se a mulher nem conversa, não serve pra nada.E o gol do Canadá coincide com o momento em que a mulher se levanta e marcha até o balcão para fechar a conta. Antes, repara que a mesa vizinha se assemelha a um mostruário de aparelhos auditivos e que o voz de trovão é o mais garoto da turma, carinha de 65, e calvo.