A pia transbordando de vasilhas costuma deflagrar conflitos internos. Irritação. Se não fui eu que sujei tanta coisa, por que tenho que lavar tudo sozinha? Preguiça. Ah, nesse tempo aqui limpando, eu posso ver um filme, ler, ficar deitada quietinha só curtindo sossego. Culpa. De novo estou procrastinando e isso não favorece ninguém, se tivesse encarado o serviço, já estaria terminando e aliviada. Nunca antes uma alegria insuspeitada, profunda, sincera, de afirmação de capacidade ao empunhar bucha, sabão e detergente para lavar copos, pratos, talheres, panelas. Eu consigo, eu posso, estou fazendo. Segurar sem medo de deixar cair e quebrar, deixar as mãos se deliciarem com a água fria da torneira escorrendo e limpando, sujeiras escorrendo pelo ralo enquanto dores de corpo e alma se esvaem no gesto simples de atividade cotidiana.