“Perdi-me do nome, hoje pode chamar-me de tudo. Dancei em palácios, hoje danço na rua. Vesti-me de sonhos, hoje visto as bermas da estrada. De que serve voltar, quando se volta pro nada.” Esses são os versos iniciais da belíssima canção Balada de Gisberta, composta pelo português Pedro Abrunhosa e imortalizada na voz de Maria Bethânia. Uma música que foi criada a partir não só de um crime, mas do que pode haver de mais perverso na alma humana.Vinte anos atrás, em 14 de fevereiro de 2006, um cadáver foi encontrado em um prédio abandonado na cidade do Porto, norte de Portugal. O corpo era de Gisberta Salce Júnior, 45 anos, mulher trans que saiu de São Paulo em busca de oportunidades na Europa. Primeiro em Paris, depois no Porto, ela viveu em cortiços e pensões, quando não nas ruas, onde ganhava a vida com shows em boates e também na prostituição, como tantas e tantos ao redor do mundo. “Eu não sei se um anjo me chama, eu não sei dos mil homens na cama e o céu pode esperar”, continua a poesia de Abrunhosa. Mas numa noite, Gisberta encontrou seus algozes.Ela foi levada para seu cativeiro por nada menos que 14 adolescentes, entre 12 e 16 anos de idade. Nesse imóvel decrépito e cercado pelo silêncio e a indiferença em uma rua sem saída, ela foi trucidada por dias a fio. “Eu não sei se a noite me leva, não ouço meu grito na treva, o fim quer me buscar”, descreve a canção em sua homenagem.Gisberta sofreu todo o tipo de sevícias e torturas. Foi estuprada, teve seus ossos quebrados, seu rosto desfigurado. E após essas numerosas sessões de sadismo, os criminosos a deixaram no quarto, imóvel, sem reações. “Trouxe pouco, levo menos”, diz a música, traduzindo o final trágico que Gisberta encontrava naquele quarto sujo e sinistro. Mas ela ainda respirava. Ao voltarem para o local, os assassinos a viram na mesma posição e, acreditando que ela já estava morta, quiseram se livrar do corpo. Gisberta foi jogada no fosso do elevador do edifício e lá no fundo, mergulhada na água que ali se depositara com o tempo, afogou-se. “A distância até o fundo é tão pequena... No fundo é tão pequena... a queda... E o amor é tão longe”, canta Bethânia.Não há como nominar atos tão cruéis como estes. Houve indignação quando tudo foi revelado e Gisberta ainda é lembrada por movimentos de defesa dos direitos LGBTQIA+ como um símbolo das violências a que pessoas trans, como ela, estão expostas. Morei no Porto durante um ano e muitas vezes passei perto daquele prédio, daquela rua estreita e íngreme que fica nos fundos da bela Igreja do Bonfim, um dos cartões-postais da cidade. É uma região cheia de comércios pequenos, prédios estreitos, ruas calçadas com pedras e ladeiras que desembocam na agitada estação de trens-de-ferro (ou comboios, como dizem os lusitanos) da Campanhã, onde também é possível pegar o metrô ou ônibus coletivos. Nunca imaginei um crime tão atroz como este cometido ali, no meio da cidade.Mas isso é ingenuidade minha. As violências contra as pessoas trans são cometidas o tempo todo, a olhos vistos. Eles estão na fala do apresentador popular que vomita seus preconceitos na TV aberta; estão nas análises reacionárias de comentaristas e colunistas de canais de notícias e grandes jornais; estão nos púlpitos e altares de quem se diz cristão; estão na tribuna do Congresso, quando um deputado coloca uma peruca cor-de-rosa para ridicularizar uma parlamentar trans. A mesma deputada que é constantemente agredida, ameaçada, insultada e difamada todos os dias por políticos e seus seguidores nas redes sociais.A Balada de Gisberta, mais do que um alerta, é um hino que não nos deixa esquecer que a transfobia mata. Há 16 anos consecutivos o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis. No ano passado, foram 80 homicídios no País. A expectativa de vida entre pessoas trans no Brasil é de apenas 35 anos, segundo o IBGE. Menos que a metade da população em geral, que é de 76 anos. “Apagaram-se as luzes, é o futuro que parte”, anuncia a canção para Gisberta. Para ela e para tantas outras vítimas diárias da transfobia.