Aos que, a exemplo de mim, cometeram o atrevimento de se estender por mais de meio século por aqui, é prudente desconfiar das lembranças. Os anos vão fazendo-as traiçoeiras. A imagem guardada do que vivemos se deforma até virar resíduo, porque o olhar em retrospectiva já não é o mesmo que testemunhou. A memória se subordina ao nosso estado de espírito. Os acontecimentos ficam maleáveis para nos dar conforto, menos culpa ou qualquer outro sentimento que afrouxe o nó do passado sobre quem queremos ser hoje. Se escarafunchar as lembranças da própria vida não oferece garantias de exatidão, imagine escrever a história dos bisavós paternos a partir de meia dúzia de documentos amarelados, recolhidos inicialmente para a obtenção do passaporte italiano. Mais: calcule a energia emocional de se jogar nessa tarefa sendo jornalista, espécie em extinção justamente por insistir na comprovação dos fatos num mundo com apetite por delírios. Foi esse turbilhão que Rosane Tremea enfrentou em Cecilia, Antonio e Eu. Sob o frio cortante do porto de Gênova, Antonio e Cecilia tinham pouco mais de 20 anos quando, atendendo à propaganda do já claudicante Império do Brasil, embarcaram num caminho sem volta. Ambicionavam deixar para trás a fome e toda a sorte de infortúnios que lhes sequestravam a esperança naquele inverno de 1883. Assentados no que hoje é a cidade gaúcha de Bento Gonçalves, Antonio e Cecilia empenharam os 16 anos seguintes em tornar produtivo o lote íngreme e selvagem, adquirido a parcelas, enquanto geravam e criavam 11 filhos. O quinto, Martin ou Giuseppe – saborosa confusão cartorária que o livro detalha –, veio a ser o avô de Tremea, pai de seu pai, Antonio. Em 1984, quando soube que a filha fora aprovada na faculdade de Jornalismo, Antonio indagou se jornalistas escreviam livros, porque gostaria muito de contar a história do avô, Antonio. Nesse caldeirão meio Macondo, com nomes que se repetem e memórias que namoram o fantástico, o pedido do pai ficou em fermentação por 40 anos.A busca da memória é um esforço honroso contra o esquecimento. Antonio, o bisavô, lidou reiteradamente com a vergonha do analfabetismo e Cecília, embora letrada, haveria de estar esfolada pela rotina de camponesa e mãe serial, de modo que esperar um diário ou registros por escrito daqueles anos seria até leviano da nossa parte. Foi então que, com destemor, Tremea lançou mão da literatura, a quem, segundo o escritor Sérgio Rodrigues, “resta a atitude profundamente moral de apontar os espaços em branco onde deveria haver história”.Certidões, registros e papéis confirmavam datas, nomes e deslocamentos, mas não como viveram aqueles dois, o que sentiram, o que pensaram quando vieram dar numa terra que conheciam apenas pela promessa. Cecilia, Antonio e Eu está estruturado em duas partes: a primeira, o arco romanceado dos bisavós; a segunda, quando Ana Rosa, alter ego de Tremea, transita na metalinguagem para explicar como e por que o livro foi feito. Para a jornalista, preencher lacunas com imaginação sugere desvio de ofício. Para a escritora, foi a única maneira de chegar mais perto dos bisavós. Ainda bem que Tremea, a quem tive a sorte de ter como editora no início da carreira, desempenha ambos os papéis com talento e responsabilidade. A ficção vai emergindo na narrativa e o que temos, ao final, é a demonstração de amor de uma filha pelos pais e o gesto de organizar o caos de que somos feitos. E isso é o mais importante que a literatura tem a nos dar.