Todo mundo que eu conheço me acha chato pra comer. Sinceramente, acho isso uma tremenda injustiça. Só porque eu não aprecio carne de porco, do frango gosto apenas do peito assado, não encaro brócolis, beterraba, fígado, salsicha, agrião, couve, carne de cordeiro, rabada, pêssego, manga madura, caqui, mostarda, canela, jiló… A lista é extensa e por isso vamos parar por aqui. Arroz com pequi, por exemplo, não consigo nem imaginar dar uma garfada. Se colocar a iguaria goiana no arroz pra mim já era. Não tem essa de separar. Vamos seguir. Todo mundo ao meu redor gosta de comida japonesa; eu não. Vários amigos falam maravilhas de ceviche; eu não gosto. Na feijoada eu fico catando o feijão. Minha mulher diz que todo mundo gosta de bolo de fubá com goiabada. Não vejo graça e dispenso. Às vezes, retiro a goiabada do pedaço para comer apenas o bolo com café.Uma vez fui convidado para um jantar francês. Fiz o fino e fui. A entrada foi tranquila demais. Agora, quando chegou o prato principal, fiquei realmente preocupado. Era pato, clássico da culinária francesa. E o meu pedaço era gigante: sobrecoxa e coxa. Talvez, por conta do meu tamanho - quase 1,90m de altura - eu tenha ganhado o pedaço mais generoso da casa. Olhei para um lado e para o outro tentando encontrar uma saída, mas não tinha. Encarei. Fui na fé.Comi lentamente, empurrando cada minúsculo pedaço com vinho e água. O pessoal ao meu redor comia que lambia os dedos e, quando todo mundo já tinha acabado, minha coxa gigante e a sobrecoxa ainda estavam lá. Pálidas de tão intactas no prato. Não deu para disfarçar: todo mundo percebeu que eu não gostava. Deixei quase tudo e usei a velha desculpa que estava cheio. Quando cheguei em casa, passei mal e fiquei uma semana com aquele sabor na boca.Outro momento marcante das minhas aventuras gastronômicas foi em Santiago, no Chile. Estava com alguns amigos e fomos convidados para almoçar em um restaurante tradicional. Belisquei uma coisa aqui, outra ali, até chegar o prato principal: língua de vaca. Eu não sabia dessa surpresa. Gente do céu, foi assustador. Estava branca demais. Dessa vez, não consegui nem empurrar com vinho. Eu sou maranhense e uma vez visitando minha cidade natal, Pedreiras, decidi tomar café na rua. Eram 6 horas da manhã. Uma fila me esperava e enquanto um pedia buchada de bode, outro ia de sarapatel, fígado acebolado e panelada, que é um cozido de miúdos de boi (bucho, tripas, pata). Quando chegou minha vez, foi o momento cômico do estabelecimento: “Irmãozinho, tem pão com manteiga e café com leite?”, pedi sem pensar duas vezes. Silêncio no ar. Até eu fiquei sem graça. O pior é que tinha o pãozinho. Tem também a polêmica envolvendo o pudim. Pra começo de conversa, eu amo pudim, é a minha sobremesa favorita. Em todo lugar que vou, encerro a refeição com ele. Só que nem todos me agradam. Não sou especialista, mas já reparei que o pudim, quando tem furinhos, não fica tão saboroso quanto o lisinho. Deve ser problema de temperatura ou algum pequeno equívoco na hora do preparo. Eu li algo sobre isso em algum lugar e tomei como verdade porque precisa de alguma explicação para alterar o sabor. Alguém mais acha isso? Esqueça o pudim agora. Se você chegou até aqui, já tomou sua decisão: sou chato pra comer. Mas vou tentar provar o contrário. Uma pessoa que gosta bastante de arroz, feijão e ovo pode ser chata pra comer? Não precisa mais do que isso. Me diz aí também. Um bife acebolado é uma delícia. Pensa com arroz, feijão e tomate? Eu como feliz demais. No jantar, quando não tem nada ou bate aquela preguiça de visitar as panelas, um pão com ovo salva todo mundo. Arroz com sardinha também merece o meu respeito. Na sobremesa, se não tem pudim, um marrom glacê faz a diferença bonito. Se isso é ser chato pra comer, eu assumo com gosto.