Há quem diga que as pessoas que contestam, em geral, são chatas. Um tipo de gente que não consegue ficar calada, que está sempre levantando problemas no momento em que a maioria já se conformou, que parece adorar sarna para se coçar. Fazer contrapontos, não raramente, é um uma postura mal vista, que tensiona o ambiente, que gera confusões e bate-bocas.Bom, sou obrigado a contestar essa visão.Pois é, costumo contestar algumas coisas sim, ainda que já esteja numa idade em que penso mil vezes antes de me dedicar a esse nobre esporte, por falta de paciência, de tempo, de saúde, de sentido. Sim, de sentido. Porque, em certas ocasiões, não faz sentido algum ficar lá repetindo o óbvio, se indignando e se enraivecendo à toa, enquanto nos deparamos com teimosia, preconceitos e algum déficit cognitivo.Apesar de tudo isso, há momentos em que bancar um contraponto, rebater um argumento, se insurgir contra uma ideia fixa vale a pena. Porque se sempre nos entregarmos candidamente, como ovelhas rumando para o sacrifício, também não vamos aferir qualquer ganho dessa passividade. Seremos meros objetos, jogados de um lado para outro, levados por correntezas que nos afogam, por manadas que nos atropelam.Determinadas “verdades”, trazidas por certas “versões” dos fatos têm me levado a essa reflexão com cada vez mais frequência. Sou professor e uma das obrigações da docência, em minha opinião, é tirar os alunos e as alunas de seus pensamentos confortáveis, de seus berços esplêndidos, abalar em alguma medida convicções preguiçosas ou pouco elaboradas. Pensar é contestar, trata-se de um ato de rebeldia, uma tentativa de olhar para algo sem ter a mesmíssima opinião de todo mundo.Vou listar aqui algumas premissas que tenho contestado ultimamente, não me importando, necessariamente, em angariar simpatias ou apoios, sem me importar com o que vão pensar a respeito, sem sucumbir à saída fácil de abanar a cabeça em concordância.A primeira delas: “Ninguém pode evitar a Inteligência Artificial”.Bom, me reservo o direito de fazer um contraponto a isso. Ninguém quem? E por que não? Quando foi mesmo que perdemos a opção de escolher o que trazemos para a nossa vida, com os ônus e os bônus disso? A lei do mercado vai me obrigar? Você tem ideia de quantas leis do mercado eu desprezo olimpicamente todo santo dia?Outra “verdade” amplamente difundida: “Se você não é visto, você não existe”.Esse mantra dos influencers, essa demanda exaustiva dos regimes de visibilidade, piorada com os ambientes digitais, confunde o significado das palavras. Notoriedade não significa relevância. Eu posso existir fora das redes, consigo levar minha vida sem um smartphone como adendo do meu corpo, tenho o direito de ignorar likes e engajamentos.Uma última para terminar: “Ninguém mais lê nada”.Quem faz esse vaticínio, que fale por si mesmo. Eu leio. Eu conheço muita gente que lê. Tenho o privilégio de ter a leitura em minha vida, não como uma obrigação ou mero hábito, mas como uma necessidade vital, como matéria-prima para minha existência. E sei que é graças à leitura que ainda consigo fazer contrapontos, porque os livros me dão os elementos para continuar contestando as verdades prontas, para exercitar visões mais críticas, para refutar frases feitas, discursos hegemônicos e ideias rasas.Sempre consigo fazer isso? Não. Tenho cá meus clichês? Tenho. Não concorda com nada que escrevi? Ótimo! Vamos lá! Contraponha!