Recebi uma multa moral. Logo eu. “Não cobramos dinheiro. Cobramos atitude!”, dizia o panfleto deixado no para-brisas do carro para me constranger depois de passar quatro horas numa clínica médica sustentando o jejum da noite anterior. Logo eu, ascendente em virgem. Logo eu que escolho não transitar de carro pelo Setor Oeste. Aliás, evito também compromissos no Marista e no Aeroporto que, por razões diferentes, têm o metro quadrado mais disputado por automóvel parado. Bairros de uma Goiânia que tem muito mais estacionamentos forrados de brita do que pitdogs – algo inimaginável para a geração X. Uma cidade tão jovem quanto tola que, de modo caótico, instiga a Prefeitura e a sociedade civil organizada a encontrar soluções conservadoras de mobilidade para vigiar e punir. Cheguei bem cedinho na clínica e as vagas para clientes obviamente já estavam tomadas. A rua entupida de automóveis dos dois lados. Deve faltar garagem para os moradores dos condomínios daqui, pensei. Porque não é possível aquele mundaréu de gente cuidando da saúde naquela hora do dia, ocupando cada palmo do espaço público, obstruindo o horizonte, sufocando a existência.Feriado chegando, respirei fundo e dei a volta na quadra duas vezes. Essa esperança besta não sei de quem eu herdei. Mas suspeito de onde tenha vindo a recusa de pagar, sem revolta, R$ 50 para deixar o carro parado pelo tempo estendido do exame. Planejei pegar um Uber da próxima vez, mas também sai caro pra mim o perfume dos bancos impregnado na roupa. Foi então que identifiquei uma vaga disponível ao lado de uma caçamba com areia, que servia ao canteiro de obras de mais um edifício comercial. Observei que a fita rajada amarrada aos cones alaranjados não alcançava aquele cantinho anunciando possíveis prejuízos caídos do céu. Não avistei placas de trânsito inibidoras, não havia qualquer sinalização horizontal. Sem dúvida, um achado a cerca de 500 metros do meu destino. Por isso tudo, voltar para o carro com o sol a pino, o estômago vazio e levar um puxão de orelha moral foi desagradável. Logo eu. Não paro em fila dupla e nunca estaciono em frente a garagens. Levo a sério a prioridade do pedestre e a vulnerabilidade dos motoqueiros. Pago em dia o IPVA parcelado. Logo eu que aprendeu a confrontar a moral e a ética.Pensa comigo. A moralidade tem relações com a reprodução prática dos valores vigentes – onde operam os sistemas – e a ética é uma experiência disruptiva, portanto subversiva. A ética problematiza a transformação dos valores morais, com a análise crítica de seus fundamentos e de seus efeitos na vida da gente. Então, uma postura ética trinca e tomba uma postura que é meramente moral. Esse pessoal precisa, pelo menos, mudar o nome da multa entregue aos motoristas malas no trânsito.Enquanto isso não acontece, quero ver a “multa moral” ser formalmente entregue para pré-candidato à presidência do Brasil que oferece aos EUA a exploração de nossos minerais de terras raras, para quem promete a canetada da anistia aos golpistas de 8 de janeiro no primeiro dia de governo. Também vai cair bem a multa moral para parlamentares que defendem a machosfera Red Pill contra a Lei da Misoginia e para gestores públicos que combatem alagamento em pontos críticos da Marginal Botafogo, em Goiânia, instalando cancelas de trânsito.Já que o papel não me cobrava dinheiro, mas atitude, rasguei a multa emulando mãos de Xangô. Não assumi o desconforto, não comprei o vexame – a campanha falhou comigo. Eu era Sinéad O’Connor picando em mil pedaços a imagem do Papa João Paulo II, naquele fatídico 1992, ao vivo, no Saturday Night Live.