Lá pelo meio da festa de aniversário do sobrinho, ele fechou os olhos. Pensei que cochilava, que dormia sentado. Em casa faz muito isso. Dorme quase todo o tempo no quarto. E quando se senta no sofá da sala, no cantinho à esquerda da TV, coloca os óculos escuros para que a claridade da tela não perturbe o cochilo.Mas não, ele não dormia. Balançava o corpo no ritmo da música. De repente se levantou, deixando a bengala escorada à cadeira. Andou devagarinho rumo à pista de dança. Me levantei também para ver se precisava de algo, para comer ou beber, se queria que eu o acompanhasse até o banheiro. Perguntei. Ele não respondeu. Só estendeu os braços, num convite surpreendente para dançarmos.Dançamos, devagar. A banda tocava uma daquelas músicas sertanejas antigas. Ele sorria, contente de dançar com a filha. Quando se cansava, pedia para se sentar novamente, mas minutos depois se erguia. Dançou comigo, com uma sobrinha. Esquecendo-se da dor nas costas que tanto o aflige, papai era, nos seus 92 anos, um dos mais animados da festa. Ele e o sogro do aniversariante, que devia ter, estimo, uns 80.Aos poucos, parece, inspirando-se nele, outros casais ocuparam a pista, a maioria, meus tios, com seus também 80 ou 70 janeiros. Em certo momento, papai soltou minha mão e fez um gesto como se pegasse algo no bolso e passasse nos cabelos branquinhos de paina. Levei alguns segundos para perceber que ele repetia um movimento antigo.Durante sua vida inteira, sempre levou nos bolsos da calça um lenço de tecido e um pequeno pente. Mantém o hábito do lenço ainda. Em seus aniversários, ganhava caixas deles. E ali, naquele momento, repetiu um gesto que era singularmente seu, característico, o de pentear os cabelos onde quer que estivesse, no meio de festas, de lojas, talvez até mesmo durante missas e casamentos.Esse gesto era anedótico entre a família, assim como outras de suas idiossincrasias: a calma infinita ao falar e a lentidão ao caminhar, num tempo todo seu, alheio aos relógios e calendários, que matava minha mãe de raiva e nos fazia sempre chegar atrasados a todos os compromissos. Pois enquanto dançava, ele ajeitava os cabelos com um pente imaginário, numa viagem ritmada ao passado.Fora, segundo sua própria nostalgia, vaidoso na juventude e “bom dançador”, verdadeiro pé de valsa. Gostava de ouvir os sanfoneiros tocarem nas festas de fazenda e currutelas dos anos de 1960. Decerto, ao dançar, reavivou um pouco a memória que vai se perdendo. Papai tem demência senil.Embora ela já esteja bem avançada e ele se esqueça das coisas recentes e cotidianas: mal termina de almoçar e pergunta quando vamos comer, felizmente ainda se recorda de todos da família. Gosta inclusive de repetir os nomes dos quatro filhos, especialmente das duas filhas, destacando suas profissões: uma é farmacêutica e bioquímica, outra é jornalista e professora.Tem ainda o hábito recorrente de dar as mãos para cumprimentar a qualquer momento e de brindar com o que quer que esteja à mão, uma xícara de café ou um copo de refrigerante. Apesar das tantas perdas provocadas pela demência, do sono constante e do desinteresse pelas coisas do mundo que outrora amara tanto, como a fazenda, onde viveu quase toda a vida, felizmente também não perdeu o grande bom humor que sempre lhe foi característico. Um bom humor que ele expressa por meio do canto.Papai canta sua própria vida, um canto improvisado em que ele vai relacionando acontecimentos sucessivos: “Eu fui na casa dela pedir ela em casamento...”, mostrando que o velho ditado está certo. Eu, porém, mudaria um pouquinho: quem dança e canta, o esquecimento espanta. E também colocaria sua imagem dançando e penteando os cabelos dentro do meu “Livro do travesseiro”, na Lista das Coisas mais Lindas.