Daqui a algum tempo, talvez dentro de uma ou duas décadas, estarei em uma casa ampla e arejada, com pé-direito alto, móveis robustos de madeira, estofados em tecidos coloridos e vibrantes e lustres rústicos de palhinha, cuja luz amarelada tornará o ambiente ainda mais acolhedor.Haverá cães e gatos espreguiçando-se ao sol, rolando felizes sobre a grama que se estenderá por todo o entorno. Farão companhia às araras e maritacas que, todos os dias, virão se esbaldar na grande bacia de frutas e verduras deixada ao ar livre para que possam se alimentar em paz.A propriedade ficará a uns 200 ou 300 quilômetros da capital. Chamará a atenção de quem passar ao longe pelo imenso buritizal, cada vez mais verde e exuberante, anunciando que por ali um córrego segue silencioso, contornando pedras e arbustos enquanto irriga a terra.Eu e meu companheiro teremos plantado pequizeiros, baruzeiros, ipês-amarelos, muricis e quaresmeiras. Também cultivaremos um pomar com mangueiras, pitangueiras, abacateiros, mangabeiras, pés de cagaita e araticum, além de uma horta com alface, rúcula, couve e tudo o que mais couber por lá.As galinhas circularão livremente pelo terreiro. Delas, pediremos apenas os ovos. Da vaca, que também pastará solta, receberemos o leite. Cursos de produção de queijos, doces caseiros e panificação enriquecerão nossos currículos. Nas tardes tranquilas, eu sovarei a massa da rosca; ele, a do pão.Enquanto os bichos brincam ou se recolhem, faremos nossa produção diária de bolos e geleias para presentear familiares e amigos, que estarão sempre por perto. Eles trarão muitas crianças, que correrão entre os animais e nadarão no córrego, misturando sua algazarra a dos periquitos. Nosso refúgio começou a ser sonhado durante a sucessão de El Niños que transformou a vida na cidade em um inferno de calor, seca e poeira. Naqueles dias, ainda antes da Grande Revolução, jovens revoltados com as mudanças climáticas amarravam seus corpos às árvores para impedir que fossem derrubadas.Na primeira vez em que fizeram isso, os mais velhos riram. Mas, diante da persistência daqueles jovens, lembraram-se de como era bom viver com água abundante e clima ameno. Uniram-se a eles e passaram a pressionar as autoridades, freando a devastação ambiental e exigindo a proteção da flora e da fauna.Quando o verde voltou a brotar, os rios recuperaram o fôlego e a chuva tornou a cair, mansa e constante, perceberam que Deus nunca estivera confinado às igrejas, mas pulsava diante de seus olhos, encarnado na natureza. Ainda assim, aquilo era apenas o começo. Faltava o menino. Um dia, o garoto acordou de madrugada e caminhou até o aeroporto para receber os jogadores que desembarcavam com a taça do Hexa, conquistada na última Copa do Mundo. Sem que os seguranças percebessem, rompeu o bloqueio, aproximou-se do principal artilheiro e abraçou suas pernas com força.O jogador concedia uma entrevista coletiva quando foi surpreendido pelo gesto. Os jornalistas voltaram seus olhares para a criança, que calçava apenas um tênis velho, pintado de rosa para imitar as chuteiras caras da seleção. Ao perguntarem onde estavam seus pais, o menino respondeu que o pai morrera por causa das bets e a mãe trabalhava dia e noite para sustentar a família. Seguiu-se um silêncio raro. Daqueles que obrigam um país inteiro a olhar para si. Naquele instante, os mesmos que se mobilizaram para salvar florestas entenderam que também era preciso salvar pessoas. Conseguiram proibir as bets e, fortalecidos, exigiram o combate à corrupção, saúde, educação, moradia e renda digna para todos. Às vezes, uma revolução começa com um abraço.