Dizem que os pais educam, os avós estragam. Minha mãe não pode dizer isso dos meus avós. O avô materno me ensinou a consertar as coisas. Chuveiro, bicicleta, pipa, carrinho de rolimã, ferro de passar, tomadas... Tudo eu aprendi a consertar ou a fazer com o vô. Ele era mecânico e, quando nasci, já estava aposentado. Investia todo o seu tempo livre em mim, nos netos, ensinando o que tinha aprendido numa carreira bem-sucedida como gerente da Ford. Passou adiante o conhecimento, consertou um pouco as gerações seguintes. Por muito tempo, aquele carrinho foi o mais rápido do Vila Verde, o bairro em que cresci, em Anápolis. O vô só teria me estragado de verdade se não tivéssemos construindo também os freios da máquina automotiva que fizemos juntos. A lembrança da tarde em sua casa está cheia de cenas que até hoje eu consigo usar na minha vida: cortar a madeira, ajustar parafusos, marretar os pregos, lixar, colocar as rodinhas, engraxar, montar duas alavancas de freio nas laterais.