Fomos, durante milênios, os engenheiros meticulosos na construção do próprio desastre. Erguemos torres, catedrais e algoritmos sobre um solo que julgávamos eterno, ignorando que a Terra, em seu esforço geológico, era apenas um hospedeiro que, a duras penas, tolerava nossa soberba tecnologia. O esfarelamento do mundo, sob nossos pés, não é fruto de um azar cósmico, mas da nossa intervenção cega. Começamos alterando a composição do ar e estamos às vésperas de desregular o relógio das eras. O clima, outrora uma sinfonia de notas harmônicas, tornou-se uma agenda de incertezas, uma estridência hostil que fez da biosfera um ambiente insalubre. A desordem não se limita à superfície. Nossas perfurações, túneis, explosões e o desequilíbrio das massas polares terminaram por ferir a própria mecânica celeste do planeta. Um mundo de singularidade avizinha-se. A Terra, esse pião azul, que rodopiava no vácuo com precisão, começa a perder a cadência e o prumo. A velocidade de rotação alterando-se, os dias podem esticar-se em agonias térmicas e as noites encolherem-se em calafrios polares. O magnetismo, que servia de bússola para pássaros e marinheiros, colapsa em um caos de polos confusos.