A extrema direita é tosca e violenta, passa por cima de tudo que já se construiu de civilidade e respeito às regras no mundo civilizado. É uma tristeza viver nesse planeta ao mesmo tempo que esse continente de seres humanos equivocados e malignos.Recebi hoje de uma amiga uma matéria sobre o que um manual de mobilização das mulheres da direita anda divulgando para minar a autonomia das próprias mulheres e a proteção das crianças e adolescentes. Criaram um tal Senselho Tutelar, uma caricatura do Conselho Tutelar, com uma cartilha que diz que as crianças estão sendo forçadas a acreditar em doutrinas socialistas nas escolas públicas, que os professores deixam de ensinar os conteúdos normais de português e matemática para doutrinar as crianças para o comunismo, e pedem que as mães denunciem esses educadores.É uma versão brasileira do Conto da Aia, com certeza. Na cartilha delas, o Conselho Tutelar é ocupado por pessoas de esquerda e feministas radicais. A escola é apresentada como espaço de doutrinação, e as universidades públicas como centros de drogas, bebedeiras, vandalismo e atividades desconectadas do ensino e da pesquisa. A cartilha vai além: compara o aborto a crime, guerra e Hitler, e é dirigida especialmente às mães, aconselhando-as a vigiar os cadernos de seus filhos e denunciar os professores caso encontrem qualquer conteúdo que lhes pareça de cunho homoafetivo ou “comunista”.É uma forma de cooptar as próprias mulheres para lutarem contra o movimento de independência feminina. É uma forma de desqualificar diretamente a formação crítica universitária e a autonomia do Conselho Tutelar. É uma tentativa de esmagar qualquer debate sério sobre diversidade, orientação sexual, saúde pública, estupro de vulnerável, risco de vida, autonomia corporal, pobreza e maternidade compulsória.Assim, a mulher, que agora se posiciona para disputar poder e ter seu lugar de fala assegurado, está sendo chamada para vigiar escolas, defender moral cristã, combater as próprias mulheres e servir de base doméstica para um projeto político-religioso masculino e autoritário.Pergunto: qual é a proposta e o projeto delas para a criança nascida de estupros em menores de 14 anos? O que propõem para ajudar essas pequenos, filhos de meninas que deveriam estar na escola, que deveriam estar brincando?E, por falar em brincar, vamos ao jogo do momento, vamos ao efêmero delírio apaixonado da nação com a Copa do Mundo. Estou assistindo à série Saga do Tri Brasil 70 na Netflix e é impressionante o tom dramático que é dado às questões do futebol, com as frases mais drásticos, tipo “Este é um jogo de vida ou morte, vocês sabem”, fala o técnico para os jogadores; ou “Não quero voltar pra casa derrotado e chorando”, diz um jogador para o outro. Não ficam devendo nada para as tragédias shakesperianas.E a verdade é que a Copa do Mundo de Futebol é um mobilizador de muitas emoções para nós. Eu, por exemplo, que fui aplicada de futebol desde menina, muitas vezes já me vi rezando durante as partidas, apesar de um certo desânimo nos últimos tempos.E vejam que bonito e exato este poema do Heleno Godoy:paixão, sobretudo, mas também vício e devoçãoà aposta de que um conjunto vence o outro, em doistempos cronometrados, mas prorrogáveis, por certoé sempre uma aposta na possibilidade, nunca aquelacerteza que equilibra e conforma, pois causa brigae arruaça, xingamentos e demonstrações de racismoum ódio exercido com tanto esmero quanto o amorque ele justifica, sendo um jogo, claro, mas arremedode organização, pois paixões explodem, (in)satisfeitasacima de tudo, uma aposta no imponderável (in)pro-vável, na confiança de que somos, como na política e nareligião, tocados por uma certeza crua em nós mesmos.Saravá.