Eram quatro, na primeira manhã em que os vi, em uma esquina da Avenida T-9. Brincavam, saltando, cheirando e mordendo uns aos outros, desatentos à pressa do mundo.Em outra manhã, quando eu passava pela mesma avenida, um deles, um dos maiorzinhos, magricela, malhado de preto e branco, ainda filhote, atravessou, inesperado e veloz, diante do carro. Os freios foram ágeis.Vi que corria para se encontrar com os outros três na calçada à minha direita. Não! Com outros dois, porque o quarto – notei quando olhei à esquerda – estava estirado na ilha que separava as duas pistas.O corpinho de pelos da cor caramelo já apresentava os primeiros sinais de rigidez! Pobrezinho! Talvez fosse um cão de rua. Ou o fiel companheiro de alguém, quem sabe de um catador de recicláveis, de um morador de rua, ou escapulido de um portão aberto.Era um dos menores, baixote, patas curtas. Alguma semelhança remota com Aurora, minha salsicha. O sinal abriu. Anotação mental: nunca esquecer o portão aberto. Só de pensar me aterrorizo.Nas manhãs seguintes, estando o sinal verde, amarelo ou vermelho, eu sempre me lembrava de olhar à esquerda, para ver se alguém havia recolhido o pequeno cadáver. Passo diariamente por ali quando levo e busco meu filho na escola.Talvez uma boa alma, melhor que a minha, tivesse feito uma escolha difícil. Chegaria atrasada a seu compromisso, mas antes procuraria um lugar para estacionar o carro, atravessaria a pista de tráfego intenso, para dar ao bichinho um enterro digno ou pelo menos para jogá-lo no mato de um terreno baldio próximo. Qual o quê!Por vários dias, fazendo o mesmo trajeto, acompanhei a lenta decomposição, primeiro o inchaço, depois o mau cheiro, que parecia ultrapassar os vidros fechados do carro. Cheguei a ver algumas vezes um saco de lixo preto no meio da ilha, perto do local em que estava o animalzinho jazente. Pensava: algum trabalhador da limpeza o havia recolhido ou recolheria. Capaz!O que antes era vivo, saltitante, brincante, continuava lá, agora murcho, ressequido, o esqueleto entrevendo-se sob o pelo arrepiado. Já não catingava. Pouco se distinguia do que fora, havia bem pouco um cão. Já quase desaparecia misturado à grama da ilha.Chuvas vieram. Pensei que o tivessem carregado para um bueiro próximo. Imagina! Ainda ali está, matéria orgânica, incorporando-se à terra, adubando a grama. Daqui a pouco, talvez já amanhã mesmo, será pó, carregado pelo vento, sepultado enfim, não em um só um lugar, mas em vários, para onde for soprado.Mas que tema mórbido é este sobre o qual escrevo? Eu não teria nada mais bonito e ameno para contar? Ou mais relevante do que cães insepultos? Com tantos temas sérios e preocupantes para se abordar: os problemas de limpeza urbana e trânsito da cidade, o mundo em guerra, a guerra política para as eleições que se aproximam.É que foi a primeira vez que assisti, dia a dia, à decomposição do melhor amigo do homem, domesticado há milhares de anos e incorporado a nossas selvas urbanas que, se atropelam e bombardeiam gente, por que não atropelariam animais?Já os tinha visto perdidos, agonizantes, esquálidos, adoecidos, infestados de vermes e pragas, torturados, mas nunca havia testemunhado, tão par e passo, o desaparecimento de um que até ontem vivia, o tornar gradual ao pó. Fiquei me sentindo culpada, pois minha alma já foi melhor e já tentei socorrer alguns, mas ela se dobrou ao sentimento de impotência.Pois esta alma inerte admira muito àquelas que recolhem e salvam animais abandonados e maltratados. Às vezes contribui modestamente com alguns voluntários e entidades, mas é tal a quantidade de pedidos de ajuda, que prefere ignorar. É como enxugar pelo. Só que nem sempre é possível fingir não ver o que salta aos olhos no meio das avenidas, oh alma egoísta!