Quem se depara com a capa de Um Palmo ou Dois Acima do Chão, meu romance a sair proximamente pela Faria Silva Editora, São Paulo, percebe que a literatura ali começa já na própria composição da imagem. A designer gráfica Raquel Matsushita operou uma transmutação visual que é, em si, um exercício de criatividade e sabedoria. Num trabalho de aguda percepção, ela decifrou o livro em um conciso cardápio de símbolos. Buscou inspiração no fundo da narrativa: o momento em que o protagonista, destituído da chave da leitura, encara uma página impressa de um almanaque e avista ali um exército de formigas enfileiradas sobre a folha branca. O assombro do menino dá-se quando percebe que os iniciados conseguem arrancar histórias daquela aparente desordem de pequenos insetos. A capista capturou essa epifania cultural e transportou-a para o espaço gráfico, amarrando a trajetória do personagem, ao rigor da numerologia e do cabalismo, numa forma tão expressiva e condensada, como se fosse um haicai. A capa narra visualmente a transição existencial do protagonista, o exílio forçado, mas também crivado de desejos e sonhos, que o retira do mundo rural e o joga na dureza do meio urbano, sofrido, mas cheio de esperanças, a troca da estrada de poeira pela rua calçada. Esse rito de passagem é composto por uma tonalidade cinza, da poeira e da seca do Cerrado, que recebe o acabamento de bordas douradas, o brilho sutil do ouro alquímico que promete a redenção pela palavra, que busca adquirir pela habilidade da leitura.O maior segredo da composição reside nas formigas. São oito, ao todo: seis dispostas na primeira capa e duas que migraram para a quarta capa, completando o ciclo. A escolha do número de insetos, nessa quantidade, carrega uma sugestão simbólica de profunda tradição. A formiga é o arquétipo da força resiliente, da vida industriosa e da obstinação cega que ignora o tamanho do obstáculo para abrir caminhos na terra dura e construir o formigueiro com sustentabilidade. Na cabala mística, ela representa a fertilidade das ideias que se multiplicam no subsolo da mente antes de virem à luz. É o bicho que trabalha no silêncio, assim como o escritor, sobretudo o de província, que burila o seu texto na calada da noite, sem nutrir imediatas expectativas. E o que dizer do número oito? Raquel Matsushita não distribuiu as criaturinhas ao acaso; submeteu-as ao império simbólico do algarismo que rege o equilíbrio cósmico. O oito é o infinito deitado, o emblema das grandes possibilidades e da regeneração espiritual. É o número que orienta a Torre dos Ventos em Atenas e os raios da roda celta; os mesmos oito raios que sustentam a roda búdica do Darma e as pétalas sagradas da flor de lótus, apontando as sendas do melhor caminho. Na geometria sagrada, o oito é o octógono, a forma intermediária e mediadora entre o quadrado (a Terra, o limite) e o Círculo (o Céu, o absoluto). O octógono é a virada de chave, a ponte necessária para o ser que deseja elevar-se um palmo ou dois acima do chão da sua própria precariedade.Ao espalhar seis formigas na entrada e guardar duas para o encerramento, a designer cria um compasso rítmico. O seis, número da criação e do equilíbrio humano, prepara o espírito. O dois, na quarta capa, evoca a dualidade, o diálogo entre o criador e a criatura, entre o ponto de partida e o porto de chegada. Juntos, perfazem o oito completo, a afirmação de um destino que já estava traçado pela força interior do personagem.Raquel Matsushita compôs uma capa que é uma obra de invulgar beleza e simbologia. Ela prova que a grande arte gráfica, assim como a poesia, é uma metáfora transcendente e poderosa. Quem segura o volume de Um Palmo ou Dois Acima do Chão toca em uma engrenagem ricamente simbólica, uma mandala que convida o leitor a abrir caminhos pela própria imaginação, antes de navegar pelos meandros do texto.