Na década de 90, o Japão enviou-nos um pequeno ovo de plástico que, sob a aparência de brinquedo, escondia um rigoroso manual de adestramento humano: o Tamagotchi. Era um bichinho digital portátil, sem utilidade aparente, mas que exigia cuidados constantes. Se o dono negligenciasse alimento, acarinho ou higiene, a criatura morria. O que parecia uma excentricidade de época — pessoas acordando no meio da noite para “alimentar” um chaveiro — era, na verdade, o ensaio geral para a chegada dos smartphones. Uma domesticação do homo Sapiens para o mundo digital, ou sociedade fluida. O Tamagotchi descobriu como gerar dependência emocional por meio de uma rotina de cuidados, preparando-nos para a atenção constante, que hoje dedicamos aos celulares.O celular não é mais apenas um acessório; é um prolongamento da nossa mão, quase um objeto de culto que seguramos como um rosário digital. Mais do que isso: é o nosso HD externo, um anexo cerebral. A aceitação social dessa obsessão passou a ser o estado do novo normal. No entanto, o smartphone não é o fim da linha, mas o preparo para o próximo estágio, um confinamento ainda mais feroz e assombroso. Por meio do chamado “capitalismo de vigilância”, cada comentário que digitamos, cada leitura de texto, cada visualização de vídeo e cada “like” que distribuímos são colhidos como dados comportamentais. Nossas experiências privadas são transformadas em bens corporativos, extraídas muitas vezes fora da nossa consciência plena. Mais impulso do que razão.As Big Datas e a psicopolítica digital criaram um fluxo de informação onde somos constantemente monitorados. Os dados pessoais servem de controle e vigilância, permitindo que mentes comandantes saibam mais sobre nós do que nós mesmos. O filósofo Byung-Chul Han, autor de Sociedade do Cansaço, alerta que o celular funciona como um “confessionário digital” onde somos levados a expor-nos voluntariamente. Com a diferença básica de que, no velho confessionário, na capela da paróquia, tínhamos a garantia protetora do sigilo sacramental. No confessionário tecnológico, nossas confissões são colhidas para fins escusos, declarações que se voltam contra nós, explorando-nos exaustivamente. Pode parecer estranho, mas a evasão da intimidade tornou-se, na sociedade contemporânea, uma questão de orgulho e de status. Já vivemos numa condição em que nossa subjetividade é moldada para “likes” e métricas, agindo como empresários de nós mesmos em autoexploração constante e consentida. Neste cenário, a ideia de transmigração da consciência dos corpos para os datacenters deixa de ser ficção científica para se tornar uma possibilidade logística. A hipótese do “upload de mente” sugere que, ao transferir o padrão de informações da consciência para um computador, poderíamos alcançar uma imortalidade virtual. O sistema pode concluir que é mais eficiente manter a população encarcerada em servidores do que fisicamente no bioma biológico. Afinal, um percentual altíssimo da nossa consciência já está capturado por algoritmos e guardado nessas traquitanas.Essa transição do biológico para o digital não exigirá grandes guerras; talvez, baste apenas dois ou três cliques, sob aceitação dos termos de uso, que já nem lemos, e nos entregarmos, feito manada de ovelha cruzando a porteira do aprisco. Pagamos por esse encarceramento paulatino como se fosse um benefício, iludidos por uma “vida líquida” de identidades flexíveis adaptáveis ao feed do momento. O perigo real não é apenas o roubo de dados, mas a perda do direito fundamental de autogovernar-se. Como já disse, já não se trata de uma ficção científica ou simples teoria da conspiração. Diante de nossos olhos, na tela plana do celular, somos sugados, numa transfusão contínua da consciência, de nosso corpo para a máquina. Na hora propícia para o sistema, virá a guilhotina final. Aquilo que começou com um singelo Tamagotchi.