Ao primeiro clarear, ele teve o sono fulminado. Foi bom, assim não se atrasa para ser uma boa pessoa. Saiu da cama com ímpetos de produtividade: como só ia pegar o home office às 9 horas, catou as roupas sujas do cesto transbordante e jogou na máquina – providência que o livraria do dissabor de ficar sem cuecas limpas no próximo banho.Perguntou as horas e a Alexa disse, convicta: 6h45, ou seja, em 15 minutos já estaria aberta a mercearia da esquina. Inspecionou a geladeira, reduzida a um vazio açoitado por frentes frias, e refinou a lista de compras. Faltava mamão, tofu e café em grão para um desjejum vegetariano à altura de um dia que, como todos os dias sob o capitalismo, se anunciava massacrante.Optou por um combo de quatro mamões, um maduro e o restante com a casca em tons variados de verde, numa estratégia para ter fruta fresca, sem mofo, até o fim da semana. O tofu foi mais complicado: precisou engolfar a peça de um quilo num saco plástico, para evitar gotejamento de soro no piso do mercado, embora estivesse mais preocupado com o do apartamento, cuja faxina corre sob sua responsabilidade oscilante e sujeita a preguiça.Quando soltou a sacola com as compras sobre o balcão da pia, a Alexa, supervisora implacável de rituais éticos, já acusava 7h45. Triturou o café no moedor, e o perfume derivado dessa tarefa lhe deu ânimo. Fatiou o mamão mais maduro em duas metades e, com uma colher, livrou-se das sementes. Desferiu cortes longitudinais até a fruta se fazer em seis meias-luas. Por fim, passou a faca rente à casca e transformou a carne, úmida, de um laranja brilhante, em cubinhos. Deu duas tigelas.O tofu, claro, estava gosmento, o que foi solucionado sob água corrente. Reduziu a peça em lascas irregulares e grosseiras. Como o queijo de soja carece de personalidade, puxou o banquinho e catou do armário aéreo o processador que, por acompanhá-lo desde os tempos em que vivia em vilas fronteiriças e distantes, só trabalha a pleno na tomada de 220.O vidro de alcaparras em conserva se mostrou arredio, só foi aberto com auxílio de um abridor de latas para despressurizar o vácuo. Misturou tudo, polvilhando sal. Quando ao fim de dois minutos o processador entregou um creme vigoroso, aderente a pães enriquecidos em textura numa chapa, a Alexa advertiu: 8h15.Invejou o pai, que, ao longo de sete décadas, não embranqueceu um cabelo sequer pensando no que ia comer: sentava à mesa e, como por mágica, tudo aparecia na frente, fumegante. Também se sentiu um trouxa por ser vegetariano, implicar com a pecuária, quando podia resolver as coisas com um embutido vagabundo qualquer.Faltava ainda o café. A chaleira chiou enquanto ele se esgueirava no armário do balcão, à cata do filtro japonês. A água descia com lentidão pelo pó, gota a gota. Aprumou a xícara, ainda sem adicionar o scoop de creatina recomendado pela nutri. Enfim o líquido preto redentor verteu.Ele então sentou, com prazer por relaxar pernas e nádegas submetidas a um vaivém desde o primeiro raio de sol. Teria pelo menos 15 minutos para desfrutar daquela refeição na qual havia investido duas horas e 2.500 passos. Ao sorver o primeiro gole, a máquina de lavar, com indiscrição sonora, avisou que a roupa estava pronta.Agora era tomar café ou se ver com o varal: não havia tempo para as duas coisas. Enquanto era devolvido faminto às obrigações domésticas e operárias que o chamavam, sentiu um cansaço misturado a uma simpatia antes impensada pelo conservadorismo.