Retratos de algumas personalidades populares no Brasil do final da década de 1970 abrem o filme de Kleber Mendonça, O Agente Secreto. Para o público da geração Z e Millenials tardios, mera contextualização de efeito estético-temporal. Para mim, Chacrinha, Gloria Menezes e Tarcísio Meira, o jovem José Wilker, entre outros de quem não se lembra o nome (pois ausentes do TikTok), além de uma belíssima imagem da eterna Clara Nunes. Nem sempre é um mistério as razões pelas quais algumas pessoas e fatos ficam guardados e nos enrodilham em sentimentos e pensamentos ao longo da vida. Inocência é pensar que isso tem a ver com o coração e a mente apenas. Acho razoável apagar da memória Abelardo Barbosa e, se possível, desserviços prestados por sua condução “politicamente incorreta”. Intoleráveis são outros esquecimentos patrocinados, providenciais para a consolidação de hegemonias. Do cancelamento de ideias e práticas dissidentes até o apagamento da cosmologia de um povo. Exercício de um crime chamado epistemicídio, ou seja, a negação, a desvalorização, o extermínio dos saberes, das crenças, dos corpos e da cultura de populações oprimidas pelos projetos de poder do homem cis branco.