Quando chamo o Uber, me curvo com o peso de uma tradição masculina. Sinto-me um macho incompleto, metaforicamente castrado. Nasci sem sensibilidade para prazeres de ordem automobilística. Sou incapaz de diferenciar modelos, salvo pela cor ou pela logomarca das quatro montadoras que existiam meio século atrás, na minha infância. Se calha de vir um carro chinês, agonizo em taquicardia - não por pendores trumpistas, mas pela absoluta impossibilidade de formar mentalmente alguma imagem identificável pelo nome do carro que aparece no aplicativo. Vivo angústias até o “motorista parceiro”, compadecido, perguntar:-Fabrício?É um alívio que só experimento nas temporadas em que, por generosidade do acaso, nenhum sinistro se dá lá em casa. A humanidade fica mais segura quando não preciso manusear ferramentas com minha habitual imperícia. A debilidade da motricidade fina também me faz um mau jogador de sinuca. Enfim, parte relevante de quem eu sou me torna incapaz de desempenhar os papeis masculinos que me foram delegados. Sou uma vergonha da raça, condição que, embora seja mais inaptidão do que rebeldia, me alimenta orgulhos. Deve ser devastador estar alinhado com quem acha bonito ser reacionário.*Fiquei girando nesses pensamentos fálicos depois de ler um dos últimos livros publicados por Borges, O Informe de Brodi. Conheci-o por Ficções, cujos textos são labirínticos, produtores de sentidos infinitos e eternos. Contudo, a título de ambientação, talvez seja prudente entrar no universo borgeano por essa coletânea, escrita, ou ditada, já sob a cegueira do autor, em 1970. São 11 narrativas que orbitam duelos, de facas cortantes e às vezes metafóricas. A masculinidade que está posta ali me parece menos pragmática do que essa, que se manifesta no gosto por carros, armas, ferramentas e tudo o que compense acanhamentos anatômicos. É uma imposição com a força de uma sentença, da qual não se escapa.Se me permitem o sacrilégio de jogar lentes de 2025 sobre certos contos, como A Intrusa, O Encontro e O Outro Duelo, é razoável vê-los com expressão da masculinidade autodestrutiva dos homens na alvorada do século 20, a geração dos nossos avós. É um arquétipo que sintetiza os valores que a turma careta e covarde rosna nos grupos de zap hoje em dia, tremendo perdas de privilégio.São rivalidades cultivadas por atavismo, sempre em função da aprovação de outros machos. Mulheres são apenas apêndices de cenário. É uma mirada trágica sobre o destino de ser homem, com suas possibilidades de existência ultradeterminadas. “A falta da imaginação os livrou do medo e da piedade”, escreveu sobre essa imobilidade de dois gaúchos. Não à toa Borges sugere que certas facas agem por contra própria: aos homens, resta cumprir o destino que também os devora.A misoginia é arrefecida em O Duelo, conto sobre duas escritoras que antagonizam na pintura. Mas, quando uma delas morre por aneurisma, o obituário destaca a “quase anônima e constante filantropia”, faz só “alguma menção apressada a seus pendores pictóricos”, porque, na sociedade argentina, “a mulher é um exemplar da espécie, não um indivíduo”. Ainda bem que é só lá, né?Prestem atenção especialmente em Guayaquil e O Evangelho Segundo São Marcos, duas obras-primas da concisão, da capacidade rara de fazer filosofia com uma literatura sintética. É interessante observar um Borges ainda mais desbastado, sem perda de profundidade. A mim, uma velhice sábia passa por esse fino ajuste de dispensar o excesso sem cortar a si mesmo.Será que a nossa turma está envelhecendo bem com o legado de testosterona vazia que carrega? Prometo pensar nisso enquanto espero o Uber ou leio o próximo Borges.