Se a história do mundo não fosse tão terrível, seria uma alegria viver. Li isto em algum lugar e concordo plenamente. As manhãs vão se tornando tão lindas por esse tempo, nesses meses de maio e junho. As crianças brincam na pracinha, em frente a minha casa, onde um vizinho, pai da pequena Aurora, colocou brinquedos, inclusive uma tirolesa, que vem atraindo bandos de casais com seus filhos pequenos, rindo e felizes como os passarinhos. Se eu não tivesse herdado essa melancolia que dizem vir lá dos ibéricos colonizadores, poderia ser tão mais leve e tranquila. Se não houvesse guerras me lembrando que do outro lado do mundo a crueldade dos homens causa tanta tristeza, eu poderia sentir contentamento nessa velhice que já se instalou, mas que ainda não me tomou todas as forças. Se não tivesse notícia de tantos assassinatos de mulheres, dessa monstruosa covardia machista, eu poderia ficar serena lendo o meu jornal, fazendo palavras cruzadas, recebendo a visita de filhos e netos, vendo os dias passarem até o momento em que me sentiria tão próxima de Deus e tão pronta a ir embora dessa vida, com confiança no futuro dos que deixo para trás.