“Qual é o seu hobby?”, perguntou o terapeuta durante uma de nossas sessões. Para minha surpresa, não soube responder. “Algo que você faça por prazer, que te leve a perder a hora, que desanuvie sua cabeça. O que seria?”, detalhou ele. Novamente, fiquei muda.Parecia que tudo o que eu fazia tinha um sentido utilitário. Eu precisava aproveitar o dia para ser produtiva, focada. Nesse processo, aquelas coisas que fazemos pelo simples prazer de nos vermos felizes foram se perdendo. Cozinhar? Dançar? Pintar? Cuidar de plantas? Desenhar? Correr? Nada disso era um hobby para mim.Até que, no começo deste ano, enquanto caminhava na pista do Lago das Rosas, a resposta tão procurada surgiu de repente. Ao apreciar as árvores exibindo aquele verde vivo depois da chuva, as araras cortando o céu azul e as crianças correndo livres, entendi: eu amava fazer aquilo. Poderia caminhar horas a fio.Como num flash, lembrei-me da época da pandemia, quando as caminhadas nesse mesmo parque se tornaram o salva-vidas da minha saúde mental. Voltei também à adolescência, quando, naquela mesma pista, eu caminhava ao lado da minha melhor amiga e me divertia enquanto colocávamos a conversa em dia.Talvez por ser tão prosaica e cotidiana, eu tenha menosprezado a caminhada. Acreditava que um hobby deveria ter certo glamour, preparo ou dedicação especial. Estava errada. Na verdade, ele existe somente para nos proporcionar satisfação. Não há fórmulas prontas para que isso aconteça. Durante minhas caminhadas, converso com Deus. Levo a Ele meus pedidos e dúvidas, e o vejo responder em forma de cantos de pássaros, flores que desabrocham, da grama verde que sucede a seca, do céu que se abre depois da chuva. Ele me ensina que há um tempo e uma razão para todas as coisas.Vi Deus semana passada, quando uma menina de cerca de 5 anos abriu um sorriso ao conseguir andar de bicicleta sem rodinhas e ouvir o pai gritar: “Muito bem, Sofia!” Vi Deus também em uma senhora de roupa esportiva verde-fosforescente, que escutava Girls Just Want To Have Fun no volume máximo e sorria para todos ao passar.Deus se revelou nas pequenas flores amarelas e alaranjadas plantadas nos vasos da mureta do Lago das Rosas que, pela primeira vez, não estavam sendo arrancadas nem furtadas. Vi Deus nos cães de rua correndo alegres pela grama depois de serem alimentados pelos vendedores das barracas.Também o vi em um homem em situação de rua, andando com roupas marrons e olhar perdido. Nas árvores frondosas que foram podadas ou extirpadas sem dó, deixando calor e aridez onde antes havia sombra e frescor. Nas crianças famintas que pediam dinheiro no semáforo e exibiam sua escassez diante dos carros fechados.Porque Deus não apenas embeleza nossos olhos durante a caminhada. Ele também escancara a desigualdade social, a devastação ambiental, a dependência química e as cidades projetadas para poucos, que acabam excluindo muitos. Ele inspira, mas não permite que nos anestesiemos pela alienação.É dentro dessa dualidade entre dor e beleza que a caminhada se revela para mim como algo maior que um hobby: uma necessidade. Descobri que preciso andar pela vida no meu próprio ritmo, observando tudo ao redor com calma e nitidez, sentindo cada pessoa e cada cenário em sua inteireza.Como na música Esquadros, de Adriana Calcanhotto, “eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome…”. Enquanto muitos pregam que a gente deve correr e ver a vida como um borrão pela janela de um carro, eu caminho. Não quero chegar mais rápido, mas estar presente em cada passo.