Eu me lembrei muito de você nas últimas semanas. Primeiro, por causa do show do MPB4. Eles se apresentaram na Mostra O Amor, a Morte e as Paixões, com um repertório que trazia muito de Chico Buarque, Vinícius e Toquinho. De repente, foi como se eu estivesse sentada no chão da sala da nossa casa, no Setor Sul, ouvindo seus vinis e cantarolando o refrão de Apesar de Você.Sua lembrança também me veio durante dois filmes exibidos na Mostra: Valor Sentimental e A Cronologia da Água. Eu gostaria que você estivesse aqui para que pudéssemos conversar sobre eles. Ambos tratam de traumas vividos por filhas em decorrência do comportamento do pai e de como conseguiram superar essas marcas e seguir em frente.Há tantos elementos familiares, íntimos e pessoais nessas duas histórias, que essa conversa só poderia ser com você. Alguém que não estivesse em nossa casa naqueles dias, que não tenha visto ou ouvido tudo o que aconteceu, dificilmente conseguiria compreender como assimilamos tudo isso e como essas experiências se desenharam dentro de cada um de nós.De Valor Sentimental, tenho certeza de que você teria gostado. O roteiro, a fotografia, as interpretações — tudo isso atrairia sua atenção. O filme aborda a história de Nora e de como o abandono do pai, Gustav, impactou sua vida e a da irmã, Agnes. Ele, um cineasta reconhecido, decide sair de casa e deixar para trás as filhas pequenas e a esposa para realizar seus sonhos profissionais.Quando a mãe das duas morre, Gustav retorna — não apenas para resolver questões burocráticas, como a venda da casa onde ela morava, e que lhe pertencia —, mas principalmente para convidar Nora, agora uma renomada atriz de teatro, a protagonizar um filme de sua autoria, cujo roteiro remete à história familiar de ambos.Ao contrário de Agnes, que conseguiu se casar, formar uma família e manter um relacionamento mais pacífico com o pai, Nora nutre raiva por Gustav, desenvolveu pânico de intimidade e nunca conseguiu sustentar vínculos afetivos duradouros com homens. Antes de entrar em cena, chega a ter ataques de pânico e, para se recompor, pede que o companheiro de elenco bata nela.Em certa altura, numa conversa com Agnes, Nora pergunta à irmã caçula: “Como isso aconteceu? Você ficou bem e eu fiquei louca”. E questiona: “Por que nossa infância não arruinou você?”. Agnes responde: “Há uma grande diferença na forma como crescemos: eu tive você. Quando minha mãe estava triste, você lavou meu cabelo, penteou, me levou para a escola, eu me senti segura”.Acredito que esse diálogo deixaria mais claro para você por que tudo o que aconteceu em nossa família me impactou mais do que ao meu irmão. Quem convive com o trauma por mais tempo tende a ser mais afetado por ele. E isso nem sempre depende de ser o filho mais velho — pode ser o mais novo, como acontece em A Cronologia da Água.Sobre este filme, tenho dúvidas se você gostaria. A estética é mais crua; trata-se de uma experiência sensorial sobre a dor vivida por Lídia. Ela e a irmã, Cláudia, foram abusadas sexual e psicologicamente pelo pai durante a infância. Claudia não suporta e foge de casa, deixando Lídia e a mãe alcoólatra sozinhas com ele.Lídia tenta a natação, mas é na escrita que se encontra. Depois de uma vida de autossabotagem, torna-se uma escritora de sucesso e constrói uma família completamente diferente daquela de onde veio. Nos desfechos de ambos os filmes, a mensagem é semelhante: apesar de tudo, é possível transformar o trauma em algo significativo. Eu ainda estou aprendendo a fazer isso, mãe. E, de algum modo, quero te contar que, entre tropeços e acertos, estou conseguindo.