A mulher criou cabelos longos para sentir o vento sentada em lótus e lutar contra o patriarcado. Foi quando Oyá se fez mais presente em seus dias. A passagem do tempo ganhou registro concreto nas fases diversas documentadas em fotografia digital. A fase estranha das orelhas cobertas, da tiara de pano para livrar as vistas, a fase do calor que irradia da nuca, o rabo de cavalo, a trança nagô-boxeadora, o coque samurai.Em certas manhãs buscava no espelho o semblante da velha de madeixas grisalhas reunidas no alto da cabeça em perfeito desalinho não intencional. Mas quase sempre enxergava a mulher que não se reconhecia emoldurada pelo frizz etéreo que a havia acompanhado na juventude.Com o passar dos anos, cultivava cabelos compridos para prendê-los. Soltá-los apenas enquanto secavam entregues à brisa, para seduzir radicalmente e para dormir. Ela havia se acostumado à ventania. Foi quando Otin se fez presente em seus dias.“Gostaria de raspar os cabelos”, anunciou sem hora marcada na recepção chique do Charme Cabeleireiros. A cabelereira estava ocupada com uma hidratação e poderia atendê-la (com enfado) em seguida. Da poltrona próxima à entrada, a mulher observou a performance da feminilidade em estado agressivo – um legítimo laboratório para leitoras e leitores dos estudos de gênero de Judith Butler.Pessoas humanas que criam cabelos longos para sentir o vento sentada em lótus para lutar contra o patriarcado são capazes de dizer não. Nem avisou que iria embora. Buscou no Gemini outra opção – que não barbearia –, na vizinhança e foi parar no Lu Salão de Belezas.“Somente raspar os cabelos? Vamos fazer uma massagem capilar, depilação, manicure.”, ofereceu a moça do balcão, mas ela agradeceu. Era sábado à tarde de intensa movimentação nos vários cômodos da casa, onde se ouvia Seu Jorge, secadores e boas risadas. “O Lu vai te atender!”, informou a recepcionista enquanto servia água e café. Que desperdício o cabelereiro sênior do salão se ocupar de um corte feito à máquina com lâminas de aço inox. Pensou a mulher, se sentindo honrada. Prepararam para ela uma sala, com incenso de alecrim. Coisa fina. Uma travesti toda linda, vestindo blusa amarela de alcinhas que ressaltava as marcas frescas de biquini foi colocando a capa plástica na cliente. “Sou Lu”, se apresentou.Conversa vai, conversa vem e, ao cortar a primeira massa de cabelos trançados, a cabelereira assuntou:– Vai começar quando?– Começar o quê?– O tratamento...– Não estou doente – respondeu a mulher caindo na risada.– Ah, gente... é uma promessa! Concluiu Lu, anunciando pra geral.Somente quando os ânimos se aplacaram naquele salão de belezas, a mulher esclareceu que não era cristã. Explicou que havia cumprido a missão de criar cabelos para sentir o vento e que, para não correr o risco de chegar aos 70 anos com o mesmo penteado, quis começar do zero. Sem trocadilhos.Aproveitou e falou mal do patriarcado, atribuiu à colonização todos os males da humanidade, discursou sobre o genocídio dos povos originários ainda em curso, desprezou profundamente a visão eurocêntrica predatória, anunciou a falência do capitalismo derrotado pela geração Z, curtiu com a cara da inteligência artificial. Por fim, a mulher perguntou a Lu qual era o seu pronome de tratamento favorito.Por sua vez, Lu contou que havia acabado de chegar de férias. Que o mar era o seu refúgio favorito para a recarga de energias. Compartilhou com ela ideias sobre a reforma do salão, queria quebrar algumas paredes para que as pessoas ali pudessem se ver e pudessem também conversar sem alterar o tom de voz para serem ouvidas. Disse ainda que, segundo os astros, 2026 traz promessas de felicidade, quem sabe um amor.Ficaram muito amigas a mulher careca e Lu.