Bicho viaja sim. É gente que quase não viaja, de tão besta que fica por causa de bicho. Eu me tornei o que mais temia: mãe de pet, “une femme au chat”, para usar a antiga expressão francesa, e ainda une “femme au chien,” porque sou não apenas uma mulher com um cão, mas uma mulher do cão, isto é, uma mulher que mais pertence ao cão do que a si mesma.Minha cachorrinha Aurora é que me prende pela coleira e não o contrário. Eu havia programado uma viagem em família, e não tinha com quem deixá-la. Ora – me dirão – desde que o mundo é mato a função dos cães é vigiar a casa. Mas não ela, não grande parte dos cães da atual geração. A salsicha não só não atentaria para a entrada de um ladrão, como iria recepcioná-lo com lambidas. E certamente iria convalescer de solidão.Com meus dois gatos, Netuno e Cariño, não me preocupo tanto. Basta que a vizinha lhes dê ração, que na casa permanecem. Já Aurora eu não poderia deixar só enquanto viajasse, de modo que cogitei pedir a amigos que cuidassem dela. Porém, nenhum poderia assumir tal tarefa: este porque já tem um gato de temperamento difícil. Farofa parece uma dona onça e ataca até mesmo o próprio dono à sorrelfa. Aquele porque já possui, além de cinco cães, uma coelha, um peixe, um passarinho e um menino de 10 anos que acabou de lhe exigir também um jabuti.Para não cancelar a viagem, decidi deixá-la em um hotel para pets, o que me custaria uma pequena fortuna. A decisão não seria ainda o fim dos problemas e da apreensão. Percebi que a carteira de vacinação não estava atualizada. Lá fui eu consultar uma veterinária que atende pelo plano de saúde (sim, pago um plano familiar que atende a todos eles) para vaciná-la, inclusive contra gripe e fazer um hemograma que avaliasse sua imunidade.Deixei-a enfim no hotelzinho animal, não sem antes baixar um aplicativo de monitoramento e ser incluída em um grupo de tutores onde a cada minuto são compartilhados vídeos dos hóspedes em atividades recreativas: brincadeiras com cabo de guerra, captura de bolas, caça a frutinhas.E quem disse que assim mesmo viajei tranquila? Diariamente, perguntava às funcionárias do hotel sobre Aurora, pois não a via brincando com as outras crianças, digo, com os outros cães, pois tendo sido criada entre gatos e gente, só sabe se divertir com eles e não com os semelhantes. Minha irmã, acompanhando esse desassossego, lembrou-me sabiamente de que se até nós, humanos, temos de nos acostumar a ficar sozinhos, por que os animais não teriam? Por que aceitamos o fato de que não podemos poupar sequer nossos filhos de sofrimentos e frustrações inerentes à vida, mas queremos resguardar os animais de estimação de qualquer aborrecimento e dissabor? Por que acreditamos que são ainda mais frágeis e inocentes do que as próprias crianças ou por que projetamos neles nossa própria carência e sensação de desamparo?Aliás, por que estamos humanizando tanto os animais, ajustando tanto nossas casas e rotinas em função de suas hipotéticas necessidades? Recentemente assistindo a uma entrevista com o escritor Ruy Castro, ouvi-o contar que ele e a mulher, a também escritora Heloísa Seixas, decidiram morar em um dúplex, porque os gatos de ambos não se dão bem e a solução encontrada foi cada um deles, os gatos, habitar um dos andares.Eu mesma deixei de viver em meu próprio apartamento e aluguei uma casa para que Aurora, Netuno e Cariño tenham espaço, para que possam passear pelo jardim e vagar livres pelos telhados. Por causa deles já cogitei até renunciar a minha liberdade de viajante ou quem sabe planejar roteiros em que todos possam ser incluídos, pois bicho também tem direito de viajar.