O mundo era amplo e o silêncio, uma tela em branco que só a voz humana ousava preencher. Antes dos satélites, das fibras óticas e das ondas de rádio, o homem era sua própria antena. O grito não era apenas um ruído; era o fio invisível que punha liame nas lonjuras. Imagine o nômade diante da largueza do deserto, ou o lavrador à beira da gleba imensa: o grito era o mensageiro que atravessava o espaço, que vencia o vento e alcançava o outro, em lugar ignorado e não sabido, para dizer, simplesmente, “estou aqui” ou “venha cá”.Desde os primórdios, o grito foi nossa ferramenta de sobrevivência, a arma acústica para afugentar a fera que rondava a caverna, o estrondo gutural que paralisava o agressor antes do confronto físico. Mas o grito também sabia ser doce. O chamado para a confraternização, o “ei” ou o “olá” esticado anunciava o fogo aceso, a carne, pronta e a amizade no ponto de confraternização. No campo, o grito fez-se arte e trabalho, no aboio do gado, aquela melodia arrastada, poderosa, que convence o bicho pelo volume e o tom da voz.Até na beleza da música, o grito encontrou seu trono. O que seria do rock and roll sem a catarse de um pulmão cheio? O grito ali não é falta de técnica, é o excesso de vida. É a expressão máxima do inconformismo, o som que escapa quando a palavra articulada e polida já não basta e não dá conta da urgência do existir.Contudo, algo estranho está acontecendo nas cidades de aço, vidro e asfalto. Com as modernas tecnologias de comunicação, encolhemos o mundo e, por tabela, encolhemos a nossa voz. Trocamos o esforço do diafragma pelo toque suave no cristal do celular. Se estamos em perigo, digitamos um SOS. A defesa civil emite chamadas de alerta. Se é preciso chamar alguém do outro lado da rua, ou no próximo quarteirão, enviamos um áudio. Até mesmo dentro de casa, de um cômodo para o outro, as pessoas estão postando mensagens de texto ou de áudio. O grito, esse recurso orgânico e ancestral, está se tornando um fóssil.Outro dia, no sítio, disse a meu neto para ir até a represa, ver se a bomba não estava rodando em vão. Talvez, entrada de ar. Se estivesse ligada, gritasse para eu ir desligar, com o devido cuidado, para evitar choques e a queima do equipamento. A bomba realmente estava ligada, rodando em falso, mas ele voltou sem me gritar. Disse que tentou. A sua voz não deu para atravessar a distância. Pareceu-me um sintoma melancólico dessa mudança. Menino, criado sob o signo do sussurro e da etiqueta do fone de ouvido, perdeu a potência do alarde. Ao dizer que gritou, e o som não atravessou a distância, revelou uma atrofia biopsicológica. O homem moderno desaprendeu a projetar a própria presença pela voz. Temos medo de parecer rudes, de incomodar os vizinhos ou, simplesmente, perdemos a conexão com o músculo que faz o elo entre os pulmões e o horizonte.Estamos nos tornando seres silenciosos em um mundo barulhento. Um barulho mecânico. Desumanizamos os sons. Se perdermos a capacidade de gritar, perderemos também a faculdade de reagir com o corpo inteiro. O grito de socorro que não sai é a derrota da sobrevivência; o grito de alegria que se sufoca é a morte do entusiasmo.Talvez, seja o momento da terapia do grito. Não uma técnica de fonoaudiologia apenas, porém, uma recuperação de um valor fisiológico e orgânico que vai se perdendo na entropia civilizacional. Precisamos levar as novas gerações ao topo das colinas, à beira das represas, ao centro das matas e ensinar-lhes que a voz tem volume, que o ar nos pulmões serve para muito mais do que apenas manter o sangue oxigenado.Gritar é exercício de liberdade. É lembrar que, apesar de todos os satélites, ainda somos feitos de carne, osso, sons e sentimentos. Precisamos ensinar as crianças a soltar a voz primitiva, para que elas saibam que, se um dia a tecnologia falhar, ainda possuem a ferramenta mais poderosa da natureza para marcar seu lugar no mundo: o próprio grito.