Há tempos não escuto a palavra derradeiro, que lembra desterro, que lembra remotos que lembra pretérito que lembra acabado que lembra antigos que lembra voragem que lembra ferrugem Recuso todas estas palavras para falar da amiga, de laço de sangue primício primário precursor inaugural prévio primeiro preliminar Quero e auguro sucessão sequência depois seguinte sobrevivência riso orquídeas alegrias vigente presente Quero e desejo em seguida daqui por diante porvir chegada advento horizonte proximidade amanhã. Quero e desejo o abraço a efusão o encontro o riso a irmã. Fiz este poema para uma amiga querida que acaba de descobrir um câncer avassalador, cuja fama é a de ser uma sentença de morte por si só. É uma pessoa que mora em outro país, que fico muito tempo sem ver, mas que amo, pelo humor, pelo brilho, pela graça. No dia mesmo em que me contou do diagnóstico muito preocupante, ela disse: “Você sabe que tem uma coisa boa nisso tudo?” E eu: Que coisa boa? - “É que eu saio da categoria de ‘vaso ruim que não quebra’”. E riu junto comigo, que estava triste, mas por um momento deixei de lamentar para mais uma vez admirar sua força e presença de espírito.