Crônica inspirada no poema homônimo de Ferreira Gullar O circo aportou. Pediu desculpas pelo pó acumulado nas lonas e as engrenagens rangendo como dobradiças de arca desenterrada. Pela humildade com que se armou, parecia um cogumelo murcho e remendado, cujas estacas permaneciam fincadas mais na teimosia do que no chão baldio. Palhaços mambembes e animais famintos anunciaram o espetáculo pelas ruas. Todavia, o bastante para assanhar os corações cansados do marasmo interiorano. Entre o cheiro de pipoca queimada, o bafo de querosene dos engolidores de fogo e o urro de fome do leão, ela se irrompeu. Era a personificação do inusitado. Uma dessas aparições que justifica o ingresso e a própria existência do circo. Quando subiu ao trapézio, sob luzes e o rufar dos tambores, o silêncio se instalou na plateia. Aquela tensa mudez que precede o desastre ou o milagre. Caminhando sobre o fio, negociava com a gravidade um armistício, uma trégua frágil costurada com o suor das mãos e a precisão dos movimentos. No brilho do maiô puído, onde as lantejoulas pareciam escamas de um peixe fora d’água, refletia-se a luz da lua que a lona furada não conseguia interceptar.